Vera Milliotti/Divulgação
Vera Milliotti/Divulgação

Uma companhia em busca de si

Balé do Teatro Castro Alves investiga identidade em obras de Ismael Ivo e Henrique Rodovalho

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2011 | 00h00

Olhar-se no espelho. E se investigar. É essa, em linhas gerais, a premissa que norteia o Balé do Teatro Castro Alves, de Salvador. No momento em que a companhia de dança completa 30 anos, a ordem do dia é se questionar, colocar-se sob suspeita, esquadrinhar cada um de seus traços. De passagem por São Paulo, o conjunto que se apresenta a partir de hoje no Sesc Vila Mariana traz no repertório essa ambição de desvelar-se.

Longe da capital paulista desde 2007, o BTCA deve mostrar agora os efeitos da direção artística de Jorge Vermelho, que assumiu a companhia há 15 meses e lançou-se nessa jornada em busca de uma "identidade". No programa, a questão identitária se insinua e se desdobra com diferentes matizes. Pode partir do mito de Narciso na coreografia À Flor da Pele, de Ismael Ivo. Ou contaminar o gesto em A Quem Possa Interessar, de Henrique Rodovalho. A costura entre as peças é tênue, ressalva Vermelho, mas quem acompanhar as duas obras deve perceber rastros de um mote comum.

Antes de entrar na sala de espetáculo, o público pode vislumbrar mais uma das faces dessa procura do Castro Alves na montagem 1porumpraum. Na praça interna da unidade da Vila Mariana, estarão instaladas dez cabines onde cada bailarino dança para apenas um único espectador. Assinada pelo próprio Vermelho (com supervisão coreográfica de Renata Melo), a peça traz à tona reflexos de uma busca por singularidade.

Em uma companhia formada por dançarinos com idades entre 35 e 60 anos, trata-se de perscrutar os limites do corpo maduro, de transpor para a cena sua experiência e de colocar em xeque o axioma da juventude. "Quero me colocar um pouco na contramão dessa corrente. Qualquer corpo vivo pode se comunicar. É a maturidade que traz o conteúdo. E a questão que se coloca é como refletir isso na proposta artística", lembra o diretor paulista, que é também ator e se notabilizou como curador do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto.

Por meio de depoimentos, os intérpretes expuseram dados de suas inquietações como artistas. E, dentro de um espaço que lembra um confessionário, foram levados a rever o costume de "falar" para grandes públicos e a se exercitaram na missão de objetivar sua comunicação para atingir a indivíduos.

Profundo. À Flor da Pele, de Ismael Ivo, tem apresentações marcadas para hoje e amanhã. No trabalho, o coreógrafo paulistano debruçou-se sobre a pele dos intérpretes e buscou evidenciar suas camadas. Partiu do mais superficial até chegar a lugares não aparentes. Propôs movimentações que começam na plateia, onde os dançarinos estão sob o escrutínio do olhar do outro, e depois se espraiam pelo palco, indo do proscênio até alcançar o fundo da cena.

No sábado e no domingo, o balé retorna ao Sesc com a coreografia de Henrique Rodovalho, A Quem Possa Interessar. O trabalho, sugere o diretor artístico, nasceu do encontro entre a companhia baiana (com suas particularidades) e o singular vocabulário de gestos do coreógrafo.

Se o criador do grupo goiano Quasar fez fama pelo virtuosismo de seu gestual, a ambição do BTCA parece ser a de se apropriar desse dado e incorporá-lo à sua própria maneira. O prazer de dançar e de se expor ao público foi o pretexto para a pesquisa de Rodovalho. "Ele busca chegar a esse prazer pela gestualidade, tenta desenhar no espaço essa sensação", resume Vermelho.

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