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Uma coleção para o transgressor

Os 80 anos de morte do escritor Arthur Schnitzler são lembrados com o lançamento de dois títulos fundamentais, 'O Médico das Termas' e 'O Caminho para a Liberdade', seguidos por outros 12 livros

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2011 | 00h00

Aos 16 anos ele já frequentava bordéis em Viena, anotando em seu diário todas as relações sexuais nascidas de simples trocas de olhares nas ruas da capital do império Austro-Húngaro. O apetite sexual do escritor austríaco Arthur Schnitzler (1862-1931) era de tal modo exagerado que, a exemplo do Don Giovanni de Mozart, ocupou parte das 8 mil páginas de seus diários com conquistas amorosas, computadas ano após ano - e elas chegavam a 200 relações em fase de "pouca atividade", o que surpreende, sendo ele médico e vivendo numa sociedade de sifilíticos como a vienense do fim do século 19.

Muitos tentaram entender seu comportamento promíscuo. Poucos conseguiram explicá-lo. Nem Sigmund Freud (1856-1939), seu amigo, ousou. Apenas reconheceu a contribuição do escritor para o desenvolvimento de suas teorias, definindo-o como seu Doppelgänger. É esse duplo que, no ano do 80.º aniversário de sua morte, que transcorrerá em outubro, já começa a ser homenageado com o lançamento, pela editora Record, de uma coleção de 14 volumes reunindo contos, novelas, peças, romances e a autobiografia publicada décadas após sua morte, Uma Juventude Vienense (Jugend in Wien, 1968).

Organizada pelo escritor e crítico gaúcho Marcelo Backes, responsável também pela tradução dos textos, a coleção As Grandes Obras de Arthur Schnitzler começa bem. Estão chegando às principais livrarias do País dois livros nos quais o autor como que se autoexplica. São eles a pequena novela O Médico das Termas (Doktor Gräsler, Badeartz, 1918) sobre um doutor egoísta e priápico que não se envolve emocionalmente com ninguém, e O Caminho para a Liberdade (Der Weg ins Frei, 1908), romance mais ambicioso que traça um painel crítico da Viena do começo do século passado, já contaminada pelo vírus do antissemitismo e do moralismo que condenou obras de Schnitzler. Entre esses textos proscritos estão a peça Reigen (Ciranda ou Ronda, de 1901), proibida pela censura vienense, e a novela Tenente Gustl (1900), que lhe custou o título de oficial, cassado pelo escândalo que provocou na época. Tenente Gustl segue inédito no Brasil.  Será lançado no segundo semestre junto à autobiografia nada precoce de Schnitzler, Uma Juventude Vienense. No primeiro, ele desenvolveu a técnica literária conhecida como "fluxo da consciência", que o irlandês James Joyce usaria mais tarde. Nesse monólogo interior, um antipático tenente pensa em suicídio para salvar sua honra, após ser insultado por um padeiro que, por ironia, morre do coração um dia antes de sua tentativa de acabar com a vida. Morte e, claro, sexo eram seus temas prediletos. E ambos encontram seu equivalente no sonho, que alimentaria as teorias psicanalíticas de Freud e novelas como Breve Romance de Sonho (Traumnovelle, 1925), adaptada para o cinema pelo cineasta norte-americano Stanley Kubrick em seu derradeiro filme, De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999), estrelado por Tom Cruise e Nicole Kidman.

Kubrick (1928-1999) não foi muito feliz com sua versão. Schnitzler ficaria decepcionado vendo a brega cena da orgia testemunhada pelo médico do longa-metragem, com todos os figurantes de máscara e filmados de lado para não mostrar as partes íntimas. Schnitzler foi infinitamente mais ousado 74 anos antes. Sua peça Senhorita Else (Fräulein Else, também de 1925), por exemplo, mostra uma garota que, num surto de histeria, tira a roupa no lobby de um hotel. Em A Senhora Beate e Seu Filho (Frau Beate und ihr Sohn, 1913, também traduzido por Backes), um caso incestuoso entre mãe e filho é consumado e selado com um suicídio, saída para grande parte dos perturbados personagens do austríaco - e também para a própria filha de 18 anos, Lili, que se matou em 1928 com um tiro no peito.

Por esse viés camusiano, Schnitzler é frequentemente associado aos existencialistas. Também criptosartriano, ele é entrópico até a medula: famílias escorregam para a falência moral, relações amorosas se rompem com extrema facilidade e a desintegração social é tão inevitável quanto a derrocada individual, como escancara O Caminho para a Liberdade, sobre o paradoxo que encerra essa palavra diante do vazio existencial dos fúteis personagens de seu autobiográfico relato. Nele, Schnitzler se vê refletido na figura de Georg von Wergenthin, lascivo descendente de barões do Reno que, como ele, pouco se importa com os rumos da sociedade e a disseminação de doenças venéreas, colocando o prazer em primeiro lugar. Schnitzler é o fim de toda ilusão.

Marcelo Backes, que traduziu outros livros de Schnitzler, entre eles Aurora (Spiel im Morgengrauen, 1926) e Crônica de Uma Vida de Mulher (Therese: Chronik eines Frauenlebens, 1928), classifica O Caminho para a Liberdade como um exercício autobiográfico ainda mais revelador que Uma Juventude Vienense. No romance agora lançado, Schnitzler desenha, segundo Backes, "um painel societário mais amplo". Nele, autor e narrador se confundem, antecipando a tendência contemporânea da autoficção, gênero em que o escritor se revela ao ficcionalizar fatos da própria vida. Backes dá um exemplo extraído de O Caminho para a Liberdade: o filho natimorto de Georg e Ana é uma projeção do bebê que uma das amantes de Schnitzler, a cantora Marie Rheinhard, perdeu em 1887.

Por ser amigo de Theodor Herzl, figura central do sionismo moderno, seria lícito esperar de Schnitzler uma posição clara sobre a questão judaica, que tanto marcou a passagem do século 19 para o 20. Ele, porém, segundo Backes, sentia-se mais vienense que judeu, defendendo por meio do personagem Heinrich Bermann, o poeta crítico de O Caminho para a Liberdade, um cosmopolitismo neutralizador de diferenças raciais. "Em Uma Juventude Vienense, ele fala de Herzl, mas defende a necessidade de se integrar à sociedade em que se vive." Essa "neutralidade", ainda de acordo com Backes, fez com que jornais antissemitas utilizassem excertos de seus romances como propaganda de combate aos judeus. A natureza conservadora da sociedade austríaca seria criticada em outros livros de Schnitztler e apareceria mais tarde nos romances de Thomas Bernhard (1931-1989l.

Obras como Heldenplatz (Praça dos Heróis, 1988), de Bernhard, mostram como o antissemitismo é perene na Áustria. "Ambos são muito críticos em relação à sociedade em que viveram", diz Backes. "São como conspurcadores do próprio ninho", conclui o tradutor, traçando a genealogia do grande romance austríaco autodemolidor, de Schnitzel a Bernhard, passando por Robert Musil, o autor de O Homem Sem Qualidades. "A posição deles é exatamente a mesma, a de ódio à nação minúscula, provinciana."

Por tudo isso, Backes vê no doutor Gräsler de O Médico das Termas um reflexo do caráter de Schnitzler. Não é um elogio. O médico do livro não quer compromissos. Trabalha em estações balneárias para se livrar da obrigação de acompanhar pacientes. É um burguês que se envolve com as mulheres sem muita convicção, porque nada em sua vida lhe parece definitivo. A diferença é que Schnitzler, vivendo na Viena de Freud, era mais ambicioso que o médico provinciano das termas, embora fosse tão filisteu quanto seu personagem. Laringologista como o pai, Schnitzler logo percebeu que preferia usar a pena ao bisturi, seguindo o caminho de Charcot e Kraft-Ebing ao abraçar o estudo da psicanálise.

Em momentos de crise, Schnitzler recorria invariavelmente a elipses, imitando seus primeiros pacientes que perderam a voz e foram curados por meio da hipnose. Seu O Caminho para a Liberdade é um monumento cubista à fragmentação. Histórias se cruzam e ficam inconclusas como se Schnitzler quisesse dizer que não há discurso coerente que sustente uma sociedade fragmentada, formada por vidas minúsculas, de pouca importância. Schnitzler era moderno, porém suspeitava dos modernos. Tinha consciência de sua obsolescência como personagem de uma sociedade decadente, mas, obviamente, não como autor.

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