Uma coleção em risco

'Não tenho ideias para dar vida à entidade', afirma Beatriz Nemirovsky

Camila Molina - O Estado de S.Paulo,

29 Abril 2011 | 06h00

"Estou no escuro como você", diz Beatriz Pistrak Nemirovsky Moraes Leme, filha dos colecionadores de arte José e Paulina Nemirovsky, ambos já mortos. Hoje, ela e seus três filhos - os gêmeos Gabriel e Maria Carolina, de 20 anos, e Bettina, de 18 anos - são os únicos conselheiros da fundação que leva o nome de seus pais, depois da renúncia coletiva, na semana passada, dos outros quatro membros do conselho da entidade, até então presidida pelo arquiteto Jorge Wilheim (leia ao lado). Desestruturada por essa situação, que envolveu uma última briga judicial arrastada desde meados de março, a Fundação José e Paulina Nemirovsky, instituída na década de 1980 e detentora de uma coleção de arte avaliada em cerca de R$ 100 milhões, passa agora por um momento de indefinição até que seus novos conselheiros sejam nomeados pelo Ministério Público Estadual (MPE).

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O caso chegou aos holofotes pois, mesmo que a fundação seja privada, a coleção que abriga tem caráter público. Paulina Nemirovsky assinou, em 2004, contrato de comodato, renovável, do acervo de arte com o governo do Estado de São Paulo. Assim, a entidade passou a ter como sede o segundo andar da Estação Pinacoteca, prédio do museu Pinacoteca do Estado, amplo espaço para que se fizessem mostras com obras da coleção, que tem como grande destaque o modernismo brasileiro. Também foi criada no local a reserva técnica para as 276 obras do acervo, escritório e biblioteca. No ano passado, o comodato foi renovado com a Secretaria de Estado da Cultura para até dezembro de 2020. No entanto, com essa atual situação de indefinição da entidade, algumas questões vieram à tona.

 

"É muito fácil falar que vou querer pegar os quadros para mim", diz Beatriz Nemirovsky. "Quero que a fundação seja vista pelo povo e quero dar mais luz a ela", continua a herdeira do casal, refutando que tenha a intenção de encerrar o contrato com a Secretaria Estadual de Cultura e tirar as obras da coleção da Estação Pinacoteca. Pelo estatuto da fundação, é possível que se desfaça o comodato caso a maioria do conselho vote essa questão. "Estão achando que vou vender os quadros, mas como vou tirar uma coisa que já é do Estado?"

Insatisfeita, segundo ela, com as atividades da fundação, Beatriz, entretanto, diz não ter ainda ideias sobre como "dar vida" à entidade. "Pensei em fazer eventos, estou estudando falar com amigos meus." A herdeira afirma que não era convocada para as reuniões do conselho e que, com a morte de sua mãe, teve a intenção de criar um fundo para a instituição, mas não foi adiante. "Contribuí com recursos, mas quando parei, senti que quiseram me afastar. Agora, com meus filhos no conselho, consegui ter uma voz", continua. Depois da nomeação dos novos conselheiros, o diretor executivo da instituição, Arnaldo Spindel, e a curadora da fundação, Maria Alice Milliet, assim como outros funcionários, garantem que também vão deixar a entidade.

"RENUNCIAMOS EM PROTESTO", DIZ WILHEIM

O curador de fundações do MPE, Airton Grazzioli, ajuizou, em março, ação de pedido de afastamento do arquiteto Jorge Wilheim e de Antonio Henrique Amaral e Antonio de Franceschi do conselho da fundação a partir de questão levantada pelos advogados de Beatriz Nemirovsky sobre a regularidade da permanência deles na entidade - segundo a representação, os conselheiros estariam no cargo há mais tempo que o permitido pelo estatuto.

"Renunciamos em protesto a uma manobra de colocar os membros natos a partir de afastamento de três conselheiros. Não concordamos com uma situação que contraria o intuito dos instituidores da fundação", diz Wilheim, referindo-se especialmente ao fato de que o estatuto da entidade não permite que a família seja maioria no conselho. Segundo o arquiteto, que também é conselheiro da Fundação Bienal de São Paulo, do Museu Lasar Segall e do Hospital Albert Einstein, a "imponderabilidade" das brigas judiciais poderia se arrastar por meses ou anos.

Wilheim também afirma que Beatriz e seus filhos sempre eram convocados às reuniões, mas não compareciam - participaram apenas no ano passado. Ele diz ainda que não concorda que o mesmo MPE que, nos anos anteriores, havia aprovado as atividades da entidade, tenha depois alegado ser o conselho ilegal. As decisões ficam para o MPE. / C.M.

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