Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Uma cidade sem letras

Minha singela homenagem neste dia 15 de outubro. Parabéns aos profissionais de educação

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

15 Outubro 2017 | 03h00

Dentro do Brasil há uma comunidade imaginada: a do analfabetismo. Se fosse uma cidade real, teria bairros diferenciados. O primeiro, mais tradicional, seria aquele no qual os cidadãos não conseguem sequer escrever/ler o próprio nome. São os mais representativos e deram nome à urbe. Toda a glória fundacional da cidade depende deles. Já foram maioria absoluta, hoje apresentam uma reduzida, porém, resistente população. São os ágrafos, fundadores da cidade iletrada e chegam a cerca de 8% de toda a Pindorama. 

Mais populoso, todavia com fronteiras incertas, é o segundo bairro. Todos conseguem desenhar seus nomes. Trata-se da sua única conquista. Os anteriores consideram estes arrivistas que penetraram no território sacrossanto da ausência de letramento. Os ágrafos tratam dos analfabetos funcionais como falsos cidadãos. Apesar da diferença mínima entre eles, quase imperceptível para efeitos práticos, quando recebem a visita do senhor IBGE, os dois bairros ostentam brasões de cores distintas e não admitem confusões. O segundo bairro, que jamais permite ser confundido com o primeiro, é chamado de região dos analfabetos funcionais. É numerosíssimo, quase superpovoado. Como dito, apresenta fronteiras cediças e seu número exato é alvo de apaixonados debates.

Uma primeira ida a essa cidade curiosa poderia dar ao turista incauto a sensação de que as duas categorias representam o total do município. Ledo engano! Há subgrupos ativos e orgulhosos. 

Quando o arrebol ilumina as altas torres do bairro ágrafo e dos analfabetos funcionais, surgem ângulos inusitados de chácaras e condomínios até então imperceptíveis. 

Cidadãos recentes chegaram e compraram terrenos na cidade iletrada. Conseguem juntar consoantes e vogais. Formulam sons e dominam sinais gráficos de representação. Alguns, rezam lendas, chegaram a ler um livro completo. Todos foram infectados por uma doença agressiva: a polarização. O micro-organismo existe na água e é ativado por palavras-chave, verdadeiros estopins mentais. Basta o leitor do terceiro bairro encontrar sílabas próximas como Bol-So-Na que seu sistema cerebral entra em colapso e não consegue mais ler o que vem depois. A alfabetização cai por terra. O mesmo ocorre com o dissílabo Lu-la ou monossílabos como Che. Essas sílabas, completas ou insinuadas, impedem o prosseguimento da compreensão e detonam uma espuma branca na boca e tons avermelhados nos olhos. Uns bradam entusiasmados, outros rolam na grama furiosos: ambos não conseguem ler após as sílabas Bol ou Lu. Surgem gritos, interrupção cognitiva e incapacidade de decifrar mais letras. É o quarteirão dos analfabetos passionais. 

Pesquisadores de Harvard e de uma universidade de Havana vieram estudar a origem do mal e tentar uma vacina. Infelizmente, em algumas casas não puderam entrar os de Harvard: eram “capitalistas imperialistas pró-Trump”, vociferavam alguns. Em outras, os de Havana perceberam que bastava mostrar a carteira de origem nacional com o nome iniciado pelo símbolo químico do cobre que o efeito já era provocar um surto epilético convulsivo. A pesquisa não avançou.

Há um grupo na cidade sem letras que pode conter cidadãos dos dois bairros anteriores. A diferença é que percebem apenas manchetes e deduzem todo o resto. Funcionam na leitura como os corredores fantasiados de uma São Silvestre que saem em louca disparada nos cem metros iniciais, gritam um slogan e depois param, exaustos e sem fôlego. A energia desses cidadãos só possibilita captar uma frase. A partir dela, emperram na leitura, mesmo que surjam ideias divergentes a partir do segundo parágrafo. Abrem a internet em suas casas ou na rua, olham algumas fotos, recebem textos em redes sociais e, em uma fração de microssegundos, já colocam carinhas de aprovação ou reprovação. Praticam a chamada “leitura dinâmica”, que consiste em não ler quase nada de forma muito rápida e deduzir opiniões rasas com paixão e bílis. São os analfabetos superficiais.

Bairros variados que apresentam o mesmo obstáculo: ler com atenção, demoradamente, entender antes de adjetivar e juntar sons a significados, sinais gráficos a conteúdos. O que representa a população da cidade iletrada no total no País? Não é possível avaliar, especialmente porque os dois bairros finais se consideram, justamente, os únicos cidadãos brasileiros de verdade e querem resgatar a sociedade da cegueira que identificam nos outros. Pior, alguns egressos dos bairros um e dois acabam se mudando para os bairros três e quatro e criam afeto pela nova moradia!

Para os quatro grupos foi descoberta uma cura única e especial. Existe um profissional gabaritado e plenamente competente que tem o antídoto e até a vacina contra a incapacidade de leitura e de interpretação de texto. É um ser com vocação específica para fazer o mais árduo trabalho nos pântanos da cidade iletrada e receber quase nada por isso. O único que pode esvaziar a cidade iletrada se chama professor. A esse profissional que alfabetiza nas primeiras séries do ensino fundamental e pode nos acompanhar até as últimas do doutorado, fica aqui minha singela homenagem neste dia 15 de outubro. Parabéns aos profissionais de educação. Sem eles, eu não estaria escrevendo esta crônica e você não estaria lendo. Dedico esta crônica a uma professora que deu mais do que letras, deu a vida aos alunos: Heley de Abreu Silva Batista. Bom domingo para todos nós! 

Mais conteúdo sobre:
Leandro Karnal

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.