Uma chave e seus múltiplos significados

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2012 | 03h08

É a pergunta que não quer calar. Críticos estão sempre comparando. Tão Forte e Tão Perto é melhor ou pior do que os filmes anteriores de Stephen Daldry? Pensei em Billy Elliott, As Horas, O Leitor. O melhor de todos é o último, mas Billy virou cult e, na entrevista, o próprio diretor diz que há algo do filme com Jamie Bell na história desse garoto que busca uma forma de dialogar com o pai que morreu.

Hollywood tem feito filmes sobre o 11 de Setembro - nem tantos assim -, mas o melhor da produção nestes dez, quase 11 anos, não são as obras que abordam frontalmente o assunto, mas as que o metaforizam. A extraordinária trilogia (informal) de Steven Spielberg, formada por O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique, não faz referênci\a. Aqui, o ataque às torres gêmeas está na imagem de TV, como a maioria das pessoas o viu, no mundo todo. O que ganha o primeiro plano são as consequências.

Oscar, o pequeno protagonista de Tão Forte e Tão Perto - muito bem interpretado por Thomas Horn -, foi liberado da escola e voltou mais cedo para casa nesse dia. Ele ouve os chamados do pai, que pede, ao telefone - "Atendam, por favor." Oscar, paralisado por algum estranho fenômeno - angústia, medo? -, não atende. O pai morre nas torres. Recebe um enterro simbólico, nada nem ninguém no caixão. Oscar isola-se, o que aumenta o desespero da mãe. E, então, ele encontra um dia, entre os pertences do pai, essa chave. Fica obcecado por ela. Que porta ou cofre a chave abre? Com a rara pista que tem, um sobrenome, Oscar inicia uma busca. Ganha um acompanhante, o homem mais velho, outra magistral criação de Max Von Sydow, indicado para o Oscar de coadjuvante (Tão Forte e Tão Perto também concorre a melhor filme, é verdade que sem muitas chances).

A chave - leia a entrevista - é aquilo que Alfred Hitchcock chamava de 'McGuffin'. Embora seja o que faça avançar a narrativa e coloque Oscar em contato com um monte de pessoas - muitas delas também perderam seus entes queridos nas torres gêmeas -, a chave abre portas metafóricas que terminam por fazer com que Oscar rompa seu isolamento. Você vai dizer. É um drama tradicional. O mundo precisa explodir para que o garoto, no limite, consiga se acertar com a memória do pai e retomar o diálogo com a mãe. É melhor do que a simplificação psicanalista de J. Edgar, de Clint Eastwood, que cria um monstro e o explica por meio do homossexualismo reprimido e da mãe autoritária.

Tão Forte e Tão Perto não é tão bom quanto Billy Elliott e O Leitor. Como As Horas, tem um roteiro muito elaborado e que talvez queira ser inteligente demais, exibindo seus artifícios. Mas é um belo filme, denso, habitado por personagens verdadeiros. Todos carregam suas dores. Os atores são magníficos. Daldry, de novo, fala sobre a regeneração do mundo, como no desfecho de O Leitor.

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