Uma busca por novos talentos - e pela sobrevivência

Com patrocínio reduzido, Conexão BH manteve formato dedicado a renovar cenário, apostando na diversidade

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, BELO HORIZONTE, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2013 | 02h07

O patrocínio praticamente sumiu, mudou a configuração física do evento dentro do Parque Municipal, mas, dentro do possível, o festival Conexão BH (ex-Conexão Vivo) manteve-se firme, como plataforma de incentivo de bandas e artistas de diversos estilos, novos e antigos que também contribuem para renovar a cena, além de colher bons resultados de mais de dez anos de formação de público.

A prioridade continua sendo dos artistas mineiros, que estão na base do conceito de investimento do festival. Porém, os convidados de fora, como a mexicana Julieta Venegas e os brasileiros Tulipa Ruiz e O Terno (ambos de São Paulo), Dona Onete e Gang do Eletro (ambos de Belém), Ilê Aiyê (Salvador), Móveis Coloniais de Acaju (Brasília), Maíra Freitas, Cícero e Orquestra Voadora (os três do Rio), registraram momentos marcantes nessa edição, que começou na quarta-feira e terminou na madrugada de ontem na capital mineira.

Além do palco principal - onde esses e outros artistas consagrados em seu nicho, como o rapper Flávio Renegado, que gravou seu primeiro DVD no domingo -, outro menor abriu espaço para bandas emergentes de Minas, além de uma grande pista onde DJs animaram as noites com estilos variados, como dub, música pop brasileira, funk tradicional e música eletrônica.

Outra novidade foram os cortejos de blocos carnavalescos nos intervalos dos shows, que circularam entre um palco e outro tocando samba, marchinhas, maracatu e axé. "Até uns três anos atrás, Belo Horizonte não tinha essa tradição de carnaval de rua, mas esse movimento vem crescendo e o festival, como um camaleão, vai interagindo com as manifestações da cidade", conforme afirmou o coordenador geral do Conexão, Maurílio "Kuru" Lima. É o caso, por exemplo do já famoso Duelo de MCs, que ocupa o Viaduto Santa Tereza, no centro de BH, e nessa edição teve Douglas Din como vencedor.

Grafiteiros também tiveram seu espaço garantido - e os sizudos tapumes que circundam a obra de reforma do Teatro Francisco Nunes, dentro do parque, ganharam painéis coloridos e bem desenhados.

Ao contrário dos anos anteriores, com intervalos mínimos entre os shows, que se revezavam em dois palcos, nessa edição eles foram realizados simultaneamente nos dois espaços, de modo que quem não se interessasse por uma determinada banda, poderia ir ver outra coisa.

Atrasos. Nem tudo, porém, funcionou a contento nesse aspecto. Longos intervalos (de mais uma hora) para troca de palco depois das apresentações de Julieta Venegas (na sexta) e Renegado (no domingo), cansaram e espantaram parte do público. Por conta dos atrasos, os últimos das noites - como Móveis (na quarta), Tulipa (sexta) e Gang do Eletro (domingo) - saíram prejudicados e tiveram de encerrar os shows no auge, com o público pedindo mais e até vaiando a organização.

Kuru disse que também é bom deixar no público esse "gostinho de quero mais" e avalia o festival com saldo positivo. "De certa forma, com a ausência de patrocínio mais amplo da Vivo, a gente teve a liberdade de receber mais proposições da cidade. Com menos projetos patrocinados, a gente teve a possibilidade de fazer as coisas acontecerem simultaneamente. Houve momentos de explosão no palco menor e outros de refluxo. É óbvio que quando vem uma grande estrela no palco principal todo mundo vem pra cá e há um esvaziamento. Mas o importante é que a gente conseguiu abrir mais espaço para o projeto. Este ano tivemos espaço para o audiovisual, para os DJs, para a cena emergente da cidade e para as manifestações do carnaval e outros projetos artísticos de ocupação de rua, que não tinha antes. Com isso, ampliamos e democratizamos ainda mais a proposta do festival", diz o curador.

Alguns shows puderam ser realizados com patrocínio da Vivo remanescente de 2012. Fora isso, o festival contou com pequenos apoios de outras empresas e a boa vontade de vários artistas, alguns dos quais se dispuseram a se apresentar "dentro de uma plataforma coletiva", conforme diz Kuru. "Outros se apresentaram voluntariamente, por entender a importância do festival como plataforma de visibilidade." É o caso de Julieta Venegas, que fez um show concorrido e consagrador em sua primeira vez na cidade.

Como 70% dos artistas que se apresentaram esse ano, Julieta não recebeu cachê, segundo Kuru. "Conseguimos equilibrar os custos com artistas que tinham recursos incentivados e com receita de bilheteria, que é muito popular. Os ingressos foram vendidos antecipadamente a R$ 10, depois a R$ 15 e a inteira a R$ 30." Além de Belo Horizonte, o Conexão já foi levado às praças de Recife, Belém e Salvador e pela primeira vez Kuru planeja levar esse "projeto inclusivo" a São Paulo e Rio.

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