Uma busca incessante da verdade

O Dia em Que Não Nasci começa com uma impressão subliminar. A moça alemã, em escala pelo aeroporto de Buenos Aires, ouve uma canção de ninar entoada por uma jovem mãe. Algo, que não sabe definir, é despertado em sua memória afetiva. E esse indefinível dá início a uma busca, envolvendo mais uma história da época da ditadura militar na Argentina.

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2011 | 03h08

O filme de Florian Micoud Cossen busca evitar os facilitários desse quase gênero que foca as consequências humanas da ditadura argentina. Maria (Jessica Schwarz) não fala uma palavra de espanhol nem aprenderá milagrosamente o idioma para salvar a cara do roteirista. Com essa dificuldade de comunicação, enfrentará os problemas da busca a que se propõe em Buenos Aires. Verdade, há o recurso do policial charmoso que fala perfeitamente o alemão, mas mesmo esse expediente artificial não comprometerá a credibilidade da história aos olhos do espectador.

De qualquer forma, será o fato de Maria permanecer no escuro a maior parte do tempo que emprestará ao filme o encanto que tem. Afinal, estamos falando de um tempo de brumas, em que pessoas eram assassinadas e seus filhos adotados por colaboradores do regime sem que ninguém ficasse chocado com isso. Era a ordem natural das coisas, o normal da existência.

De modo que a trajetória de Maria será a de desfazer muitos anos depois essa "ordem natural" e reencontrar-se com um passado que nem ela própria sabia existir. O filme, embora dirigido por um alemão nascido em Tel-Aviv, reflete essa necessidade argentina de saber o passado - e conhecê-lo a fundo, custe o que custar. Mesmo que o preço seja perder-se na cidade, no sentido literal e no metafórico, como insinua uma das tantas cenas marcantes desse belo filme.

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