Uma brasileira no Royal Ballet

Roberta Marques, uma jovem de 25 anos, primeira-bailarina do Teatro Municipal do Rio, já marcou seu nome nos palcos brasileiros e agora brilhará no Royal Ballet de Londres. A moça foi convidada para dançar, como bailarina principal, a coreografia A Bela Adormecida como partner do badalado bailarino Ethan Stiefel, sob a direção da diva Natalia Makarova. É um grande feito. Até então, só Márcia Haydèe havia se igualado às grandes estrelas internacionais do balé."A Márcia fez quase toda a sua carreira no exterior, estudou com bailarinas estrangeiras. Minha história é diferente, eu nunca saí do Brasil com a finalidade de estudar, sempre fiz aulas com professoras brasileiras e aprendi muita coisa no Municipal. Por isso, posso até dizer que sou a primeira brasileira a dançar como primeira-bailarina convidada no Royal", diz Roberta, toda prosa.Para Dalal Achcar, empresária e responsável pelas negociações, o mais importante está no fato de uma bailarina brasileira ser convidada por uma instituição de prestígio internacional. "Para a carreira de Roberta esse momento é importantíssimo, que abrirá outras portas, novas oportunidades."O nome de Roberta foi escolhido pela própria Natalia Makarova. Uma das principais bailarinas escaladas para integrar o elenco de A Bela Adormecida estava impossibilitada de dançar. Makarova não hesitou em convidar a brasileira para preencher a vaga. A russa, que dirigiu as montagens de La Bayadère, em 2000, e O Lago dos Cisnes, em 2001, no Rio, já conhecia o talento da moça. "Na época Natalia ficou impressionada com a evolução artística do corpo de baile do Municipal e com o desempenho de Roberta", lembra Dalal.Susto bom - As negociações foram breves e em poucas semanas firmou-se o contrato. "No princípio, Dalal não falou muito sobre o assunto, não queria me deixar ansiosa. Quando finalmente eu soube, tomei um susto, fiquei supernervosa. De repente, estaria dançando ao lado de nomes que só havia visto em vídeos. É a oportunidade de dançar os papéis que admiro, com figuras que sempre me inspiraram e em quem eu até me espelhei. A sensação é maravilhosa, ainda faltam palavras", diz, deslumbrada.Roberta embarca para Londres em janeiro, para os ensaios. "Esse é o período de férias do balé no Rio, não ficarei muito tempo ausente." O contrato prevê três apresentações nos dias 12, 22 e 29 de março. "A temporada do Royal conta com apresentações diárias durante três semanas, impossível para uma bailarina só dançar todas as noites", explica Dalal.Mesmo com toda a empolgação, Roberta não se deixa seduzir. "Não pretendo atuar fora do Brasil. Sou otimista, acredito que as coisas vão melhorar por aqui. Sei que o campo de trabalho é pequeno - só a companhia de Balé do Teatro Municipal do Rio tem espaço para o clássico - mas continuo acreditando que dá para viver da dança com dignidade neste país. Temos muitos talentos, falta investimento e apoio. Se Ana Botafogo e Cecília Kersche conseguiram construir carreiras brilhantes, por que não tentar?"As duas estrelas do Municipal também apostam no talento da moça. "Roberta é excelente. Sem dúvida esse é um momento importante em sua carreira e sei que ela contribuirá com bastante profissionalismo nessa empreitada", diz a também primeira-bailarina do Municipal, Cecília Kersche. "Ela é uma bailarina linda, que tem despontado em diferentes primeiros-papéis", completa Ana Botafogo. "Uma artista que vai ao palco com vontade e da mesma forma enfrenta o dia-a-dia. Uma batalhadora, que cresce com muito trabalho e sabe que no balé você nunca está pronta, é um eterno aprimoramento."A coleção de elogios não pára por aí. O russo Wladmir Vasiliev, ex-diretor do Teatro Bolshói, mostrou-se admirado durante os ensaios de Romeu e Julieta, em julho. "Quando a vi dançar, sabia que ela seria ideal para o papel de Julieta - jovial e ao mesmo tempo uma mulher forte, que sabe transmitir emoção, algo essencial no balé. Um grande talento." Roberta encantou os russos no ano passado ao conquistar medalha de ouro, ao lado de Thiago Soares, no Concurso Internacional de Dança de Moscou. "Fomos os primeiros brasileiros a levar um prêmio como esse, normalmente eles entregam as medalhas para os russos. Foi inesquecível."

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