Uma bonita reflexão acerca da amizade e suas contradições

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

11 Julho 2012 | 03h07

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

Um grupo de amigos, e de amigas, é um microcosmo. Sabemos que, no seu interior, existem, como na sociedade mais ampla, uma série de tensões acumuladas - amor, sim, mas também rivalidade, agressão e mesmo ódio, misturados a certa libido de grupo que não raro se traduz em violentos casos extraconjugais, culpa, ciúmes recíprocos e desconfianças. Sem que o diretor se preocupe em teorizar muito, é tudo isso que está em jogo neste Até a Eternidade, de Guillaume Canet.

 A história é a seguinte: um grupo de amigos decide manter a programação de férias na praia mesmo após um deles ter sofrido um acidente e permanecer em coma no hospital. Ludo (Jean Dujardin) é esse personagem que, embora ausente a maior parte do tempo, ocupará os pensamentos dos outros personagens. Estes se mandaram em férias de verão na estupenda casa de praia do mais bem sucedido entre eles, Max (François Cluzet).

O próprio Max, com sua paranoia e exibicionismo, é uma das figuras centrais. A outra é Marie (Marion Cotillard), carente e sexy, com uma história pontuada por namoros febris. Há também outras figuras, todas decupadas de modo a evitar a caricatura. Descrevemo-los assim apenas por conforto de narrativa, mas Canet trata de fazê-los complexos e contraditórios - isto é, humanos. Em todo caso, há sempre aquele tipo folgazão e extrovertido que logo mostrará seu lado frágil. As esposas um pouco apagadas, mas que depois se colocarão à frente da cena. E, claro, uma inevitável saída do armário, que terá importância central na trama, tanto quanto, ou mais, que o acidente de Ludo.

Até a Eternidade é uma celebração da amizade, como outros filmes bem maiores do que ele como Nós Que nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola. A amizade não deve ser idealizada, como aliás o filme não o faz. É, como já se disse, tão ambígua e sujeita e contradições como qualquer encontro entre humanos (dizem que é assim por causa da infinita complexidade do cérebro e sua incapacidade de formular relações simples como as de causa e efeito). Mas, feitas as contas, e pesando-se todos os seus contras, a amizade ainda sai com saldo muito positivo.

Essa valorização do grupo formado por pessoas com quem se tem afinidade, com quem rimos e pelas quais podemos chorar, é a linha dominante de Até a Eternidade. Um filme terno, divertido e emocionante. Talvez um pouco comprido demais (154 minutos), mas é essa longa duração que permite cenas mais complexas, cenas que exigem o tempo para que se expressem em sua completude. Bastante francês (quem lá viveu sabe que os níveis de rivalidade podem deixar os nossos no chinelo), é também universal. Em especial pela tonalidade afetiva e por essa valorização das coisas realmente importantes, de que tomamos consciência toda vez que perdemos alguém próximo, para nos esquecermos da lição no dia seguinte.

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