Uma blanche para ficar na história

Isabelle Huppert faz da protagonista de Un Tramway uma heroína desconcertante e enlouquecida desde o início

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

"Todas as noites, de terça a domingo, a cena se repete no Théâtre Odéon. Espectadores inconformados tentam conseguir lugares melhores para assistir a Un Tramway. A peça estreou em 4 de fevereiro com todos os lugares da plateia lotados, até o fim da temporada, em 3 de abril. Os raros lugares disponíveis localizam-se nas frisas, de onde não se tem boa visibilidade. O público acorre, a crítica desdenha. Le Figaro definiu Un Tramway como "insuportável". Poupou a estrela, Isabelle Huppert, mas despejou todos os sinônimos de "pretensioso" e "confuso" sobre o diretor Krysztof Warlikowski, novo enfant terrible do teatro francês.

Não importa. O público quer ver mademoiselle Huppert. Vestida pelas maisons Saint Laurent e Dior e trocando mais de sapatos do que Imelda Marcos em seu palácio de Manila, cabe a Isabelle encarnar Blanche DuBois, criação imortal do dramaturgo norte-americano Tennessee Williams. Blanche foi vivida no cinema por Vivien Leigh, na versão assinada por Elia Kazan, em 1951. A peça é, entre outras coisas, sobre o choque do espírito (Blanche) com a carne (seu brutal cunhado Kowalski). O Kowalski do cinema era um jovem ator que fizera o papel na Broadway e, depois de Uma Rua Chamada Pecado - título brasileiro de A Streetcar Named Desire (Um Bonde Chamado Desejo) -, consolidou-se o mito de Marlon Brando como objeto de desejo de plateias masculinas e femininas.

Isabelle Huppert é uma grande atriz e uma estrela. Seu estilo de representação baseia-se no distanciamento e ela pratica uma (auto)ironia que serve aos papéis que escolhe. O problema de Un Tramway não é a atriz, e certamente não seria a peça, se Warlikowski tivesse se contentado em ressuscitar o texto de Tennessee Williams. Ocorre que o diretor transformou Un Tramway numa colagem (pós-moderna?) em que a peça de Williams dialoga com Platão (O Banquete), São Mateus (O Evangelho), Alexandre Dumas Filho (A Dama das Camélias) e até com outro texto do autor, As Memórias de Um Velho Crocodilo. Se o velho bonde do desejo teve como destino final o instituto psiquiátrico para onde Blanche foi levada, Warlikowski já começa pelo fim, com sua heroína louca.

Ela nunca é frágil como em outras montagens, mas talvez seja mais histérica. Além de mantê-la encerrada numa cristaleira de vidro que ocupa o gigantesco palco, o diretor faz com que essa estrutura deslize sobre os trilhos de um boliche. Blanche já foi associada a Scarlett O"Hara, a mítica heroína do épico ...E o Ventou Levou, que Vivien Leigh também criou no cinema (ambos os papeis lhe deram o Oscar de melhor atriz). Scarlett e Blanche são relíquias do Deep South. Há nas duas a mistura de arrogância e fragilidade que caracteriza as heroínas sulistas. Scarlett não recua diante de nada. Não há infortúnio que vença sua capacidade de sobrevivência. Blanche representa a derrocada desse mito. Incapaz de conciliar sonho e realidade, ela se refugia no seu mundo de fantasias, que termina por ruir. Tennessee Williams criou para elas algumas de suas melhores réplicas. Mesmo assim, Warlikowski se vale de falas de Marguerite Gautier, a dama das camélias, para revelar a sua Blanche. Para o diretor, todas as heroínas românticas se assemelham.

Tennessee Williams se analisava cinco vezes por semana. Sofria de claustrofobia e seu maior medo era a sufocação - ele morreu, realmente, sufocado pela tampa de um spray, mas esta é outra história. A psicanálise impregna suas peças, mesmo que o código de censura de Hollywood impedisse os diretores de tratar abertamente a homossexualidade que está na origem das atribulações de seus heróis. O marido de Blanche, por exemplo, era um homossexual suicida - e Warlikowski cria uma das cenas mais impactantes da montagem ao fazer com que ele dance um tango sensual com o amante. Kowalski não tem a animalidade de Brando, mas a cena do estupro de Blanche é a mais pungente da peça. Quando ele a derruba e monta sobre ela, a cristaleira cobre os dois e a música sobe, num efeito high tech alucinante.

Kowalski é o polonês Andrzej Chyra, ator de Andrzej Wajda em Katyn. A música é quase um personagem à parte. Criada por Pawel Mykietyn, inclui solos de piano e clarinete baixo pelo próprio compositor, que é acompanhado pela nata do novo jazz polonês (Adam Walicki, Pawel Bomert, Piotr Maslanka, etc.), mas a grande novidade é a presença cênica de uma cantora, a impressionante Renate Jett, que comenta a "história" - e a provação de Blanche - soltando o vozeirão em hits como All by Myself. No programa da peça, Warlikowski, talvez antecipando as acusações, cita Jean Baudrillard (América, texto de 1988). Não o desejo, o deserto - representado pelo boliche, espaço da alienação da América consumista (lembrem-se de Michael Moore e Columbine). "Para nós, fanáticos da estética e dos sentidos, da cultura, da sabedoria e da sedução, para nós para quem só é belo o que é profundamente moral (...) necessário é descobrir que se pode desfrutar a liquidação de toda cultura e se exaltar com a sagração da indiferença." Baudrillard foi o farol de Warlikowski. O diretor talvez seja fashion demais, mas daí a ser insuportável... Só para quem se sentir incomodado por suas liberdades.

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