Uma biografia sentimental do múltiplo Odylo Costa

Personagem do mais novo volume da coleção Perfis do Rio, editada em conjunto pela Relume Dumará e pela Secretaria Municipal de Cultura carioca, Odylo Costa, filho foi um personagem influente e fascinante da antiga capital - um maranhense que se tornou símbolo da cidade adotada e que fez de sua casa, em Santa Tereza, bairro do centro carioca, um local de reunião de políticos, jornalistas, artistas e intelectuais das mais diversas correntes de pensamento e afinidades artísticas.Odylo Costa, filho, o livro (204 páginas, R$ 15,00), é de autoria de Cecilia Costa, sobrinha do perfilado, jornalista como ele. No prefácio, a autora admite a dificuldade em falar sobre o tio a quem foi tão ligada e perde perdão, em texto inspirado em Siwft, pela inevitável falta de objetividade da narrativa a seguir - mas a série não tem, mesmo, intenção de produzir biografias definitivas. Propõe o traço dos perfis, como o nome indica.Por isso mesmo, a vida de Odylo - sua influência política, seu papel na remodelação e modernização da imprensa do Rio (e na do Brasil, que se seguiu a esta), sua atividade em campos diversos do jornalismo e da administração de jornais, tudo surge embaralhado com memórias sentimentais da sobrinha, com lembranças da família grande e rica que jamais soube lidar com dinheiro, empobreceu na migração mas não perdeu o hábito dos grandes saraus em torno da mesa farta.Católico, Odylo mereceu de Carlos Drummond de Andrade, dois dias depois de morrer vítima de parada cardíaca, em 19 de agosto de 1979, versos assim: "Domingo, a pausa de Deus. Seu servo Odylo/ vai ao encontro de Deus, logo de manhã,/ À hora singela do café. (...) "Não vi, que essas altíssimas coisas fogem à minha tosca percepção, mas facilmente um cristão imagina/ O sorriso de Odylo, respondendo/ Domingo de manhã/ Ao sorriso de Deus."Nascido em São Luís do Maranhão, em 14 de dezembro de 1914, criado no Piauí, onde a família tinha propriedades, Odylo bacharelou-se em direito, no Rio de Janeiro, e ocupou a cadeira de número 15 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 1969. Escreveu novelas, contos, histórias infantis, poesia. Recebeu prêmios pela obra literária e teve intensa vida política e jornalística. Fundou semanários literários, dirigiu o jornal carioca A Noite e a Rádio Nacional, foi comentarista político do Diário de Notícias, chefe de redação do Jornal do Brasil (e lá empreendeu a grande reforma modernizadora do jornalismo brasileiro). Trabalhou em outros jornais e revistas - foi diretor da Senhor e de O Cruzeiro; conspirou contra Getúlio e participou do primeiro núcleo da UDN.Sua biógrafa combina os fatos da vida rica de fatos e atividades com as lembranças do tio adorado, num texto leve e poético que, nem por isso, deixa de contar bastante sobre a história do Brasil moderno e de alguns de seus pilares.

Agencia Estado,

07 de outubro de 2000 | 16h36

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