Uma biografia a caminho:muito caso para contar

A vaidade, mesmo que de forma simples, pode habitar Raul de Souza, mas só no que diz respeito à aparência. Décadas atrás ele já ostentava uma estilosa cabeleira black power. Hoje, muito bem conservado, com as madeixas mais enxutas e contidas, ele também exibe seus brincos de argola dourada, dois grandes anéis na mão esquerda, um na direita e as unhas do dedo mindinho trabalhadas com um desenho.

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2010 | 00h00

Musicalmente, ele teria razões de sobra para estufar o peito. Basta ver a lista de craques com quem tocou: Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Cal Tjader, Lionel Hampton, Sarah Vaughan, George Duke, Stanley Clarke, Ron Carter, Frank Rosolino, Sonny Rollins, Sergio Mendes, Eumir Deodato, Egberto Gismonti, Airto Moreira, Milton Nascimento, João Donato, Toninho Horta, Altamiro Carrilho, Baden Powell, Sivuca, entre tantos outros. Mesmo assim, Raul deixa a vanglória de lado. Figura humana espetacular, ainda hoje mescla educação com despojamento, sendo capaz de emendar em uma mesma frase um "graças a Deus" e algum palavrão.

Toda essa vitalidade faz com que, aos 77 anos, a vida de Raul seja guiada por novidades. Uma delas é um disco já gravado, em fase de mixagem, em Curitiba, a ser lançado no primeiro semestre de 2011. O álbum terá temas de Jobim, Djavan, composições feitas pelo grupo do trombonista, além de três inéditas de Raul.

A outra boa nova é a biografia do músico, que será escrita pelo colunista do Caderno2+Música, Roberto Mugiatti. O livro contará histórias envolvendo toda essa gente da pesada com quem Raul tocou ao longo de 55 anos de carreira, além de outras passagens saborosas, que ajudam a entender um pouco da personalidade do trombonista.

Entre elas, tudo o que Raul aprontou quando serviu a aeronáutica, de 1958 a 1963, que, a pedido dele, só serão reveladas no livro; a infância no subúrbio do Rio, entre Bangu e Padre Miguel; o "bolo" que tomou do veterano e ídolo Pixinguinha ao procurá-lo; as participações nos programas de calouro, como A Hora do Pato; e as longas madrugadas de bebedeira com os amigos músicos no Rio ou em São Paulo.

Tocando para um búfalo. Uma delas, além de evidenciar a paixão pelo som e a relação estreita com o trombone, revela a atitude de franco atirador de Raul no cotidiano, quando jovem, muitas vezes molhado pelo álcool. Na casa dos 20 e poucos anos, ele voltava para casa de madrugada e, no caminho, passava pelo Passeio Público. Entrou em uma espécie de pedalinho, com seu instrumento e, à certa altura do riachinho, deparou com uma placa: "Não ultrapasse." Curioso, Raul seguiu adiante até chegar a uma casinha de madeira em um barranco. Começou a tocar. Para sua surpresa, saiu de lá um espectador inusitado e aparentemente perigoso: um búfalo, para quem ele tocou improvisando por meia hora só para tirar um barato - e pela eterna paixão pela música.

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