Uma bienal no país do futebol e do Carnaval

Alfons Hug, curador geral da 5.ª Bienal de São Paulo, fez, há aguns dias, na abertura da mostra, a seguinte declaração: "(A Bienal) não pode ser vendida como espetáculo, jogo de futebol ou carnaval....Isso aqui não é arte popular. Exige sempre um pouco de reflexão e sensibilidade." Para começar, uma solene sentença. A Bienal de SãoPaulo é um evento cultural brasileiro de primeira categoria. Brasil, o país do futebol e do carnaval! Que a Bienal de artes plásticas não seja uma partida de futebol parece algo absolutamente lógico e impecável. Mas afirma-se que nada é racional, nem no Brasil, nem no mundo das artes bienais. E, imediatamente após a abertura das portas da Bienal, os paradoxos burlaram de maneira esmagadora as profecias do funcionário de carreira, Hug. No palácio industrial de Niemeyer, concebido como sala de máquinas e encravadoo no maravilhoso parque tropical do Ibirapuera, no poluído coração de São Paulo e no andar térreo do edifício, havia uma esplêndida instalação. Não me lembrarei do nome de seu criador. Era uma espécie de minicampo de futebol, hibridizado com características de campo de beisebol. Com um simulacro de gramado verde, de plástico. E as linhas de campo e cerca de seis ou sete maravilhosas bolas de campeonato. Então, o público, que no Brasil é sempre imaginativo, sensual e divertido, não esperou a chegada dos guardas do museu. Os assistentes deram cinco ou seis chutes a gol na instalação pós-moderna, mas esses chutes resultaram num escandaloso rebote pós-surrealista "fora de campo". O curador-funcionário alemão, que tem uma experiência verdadeiramente pobre em questões de arte latino-americana e internacional, não compreendeu que aquela instalação tinha encontrado seu verdadeiro lugar histórico no panorama da arte global que ele mesmo estava organizando. Era um "happy end" de perfeita definição camp. Uma decodificação da obra de arte como jogo lingüístico com objetos da fantasia, isto é, como simulacro de partida de futebol. E perdeu a oportunidade de compreender que aquela instalação,com seus espectadores dentro, rompendo pós-vanguardisticamente a dialética de interior e exterior, era precisamente a verdadeira obra de arte futebolística e carnavalesca. Deixemos a cena. Retornemos ao texto. De acordo com o curador-chefe da Bienal, precisamente esta Bienal, em sua 25.ª edição, não é um espetáculo. No momento em que a época pós-moderna, isto é, a American Postmodern, já chegou a seu ponto culminante (passou a uma expressão superior de simulacros de guerra global, de desconstrução da informação eletrônica e de desmaterialização biológica do planeta), o curador-chefe alemão afirma que os eventos político-mediático-burocráticos das bienais paulistas não são espetáculos. Se não é um espetáculo, o que será? Escárnio - Também essa segunda definição programática da Bienal foi burlada. Foi escarnecida cruelmente, como somente pode fazê-lo a imaginação carnavalesca que, de alguma maneira misteriosa, povoa todos os corações brasileiros que tive o prazer imenso de conhecer e amar. Aconteceu, pois, que o gesto daqueles espontâneos futebolistas-artistas com seus chutes, goleadores ou não, era o que, estrita e tecnicamente falando (desde o ponto de vista epistêmico de qualquer crítico de arte que pretenda ser autenticamente pós-moderno), havia transformado o cenário espetacular de uma medíocre instalação numa verdadeira situação pós-espetacular, numa ação artística transperformática e desterritorializada, entre risadas lascivas e comentários burlescos. Mas o curador-chefe não apenas não compreendeu, mas aproximou-se pessoalmente do lugar da "action-art" e, diante da estética confusa de gols e chutes, decidiu retirar pessoalmente as bolas do cenário. "Arte é para contemplar", foram as palavras paradoxais que acrescentou perante as câmeras do restaurado e reabilitado espetáculo multimediático de câmeras de televisão, microfones e jornalistas escriturando o retorno à ordem. Parecia um missionário evangélico explicando aos índios o pecado original. Ou talvez era apenas um funcionário disfarçado do FMI falando da dívida externa cultural. Dizer que a Bienal não é uma grande vitrine, um evento, um espetáculo, é patético. A distinção que o funcionário global Hug estabelece entre arte e carnaval é ainda mais obscura. O carnaval - todo o mundo sabe - é um ritual sagrado de passagem que mergulha suas raízes nas tradiçõess religiosas africanas milenares do Brasil. Carnaval é, além disso, uma obra de arte total, num sentido em que jamais pôde sonhar Wagner e muito menos os ascéticos professores da Bauhaus. Festa sagrada na qual se articula a música, a poesia e a dança com a exaltação de uma visão profunda da natureza e da sexualidade. E onde o povo se abraça com seus poetas e escritores. Somente um imbecil ou as redes comerciais de televisão podem dizer que é um espetáculo. Alambrados - Mas o ponto culminante da profecia burocrática global que hoje edita a Bienal de São Paulo está nas últimas palavras de seu curador: "Isso aqui não é arte popular. Exige sempre um pouco de reflexão e sensibilidade." Novas fronteiras. Globalidade sim, mas com novas fronteiras. E se for preciso, colocam-se alambrados. A arte da Bienal, que é arte do espetáculo, mas que se apresenta como arte de puras reflexões, não é a arte dos povos, nem dos pobres, nem dos índios, nem dos negros. Esse "povo brasileiro" não é reflexivo nem também é sensível: eis é a questão! A sentença de Hug é draconiana. Obriga a uma resposta simples, em nome da dignidade mais elementar. Há uma poderosa razão ética para defender a arte popular, no Brasil e em qualquer lugar da terra. Precisamente na era dos genocídios macroeconômicos globais que todos conhecemos. A arte popular é certamente a arte dos pobres, de seres humanos que agonizam como cultura e muitas vezes também como grupo ou nação étnica. Mas, ao mesmo tempo, é a arte dos estratos profundos, os mais antigos e mais arcanos de nossas culturas globais. Hug também não leu nem Vico, nem Herder, nem Grimm, nem mesmo Goethe, que destacaram a centralidade das tradições literárias populares na própria cultura européia. Com certeza, ele não sabe quem é Darcy Ribeiro. A arte popular constitui um substrato cultural profundo, enquanto estende suas raízes a etapas muito remotas da história da humanidade gobal. É esta aproximadamente a concepção social defendida por Gramsci desde o cárcere e que sua discípula ítalo-brasileira, Lina Bo, reformulou na Bahia, com extraordinárias conseqüências em sua boemia tropicalista musical, poética e fílmica. Existe ainda uma última razão que deslegitima este curador. Esta arte popular, à qual ele proíbe a entrada na Bienal, é a mesma que gerou a arte moderna em suas expressões lingüisticamente mais sutis e espiritualmente mais intensas. No Brasil , com certeza. A modernidade brasileira começa com Macunaíma, a mais radical das reivindicações das culturas populares do Brasil, desde a língua dos tupis-guaranis até a plasticidade barroca da África do Rio de Janeiro ou da Bahia. Não se pode deixar de lembrar o Grande Sertão, de Guimarães Rosa, o clássico moderno, ou a música e a poesia de vanguardas... Até a arquitetura dos palácios de Brasília está inspirada na elegância dos volumes puros das malocas indígenas do Amazonas. Separar o popular do erudito significa precisamente cortar pela metade a história da arte e da literatura brasileiras. Mas não se trata apenas do Brasil. A vinculação do popular e do erudito tem sido central precisamente nas aportações mais inovadoras da arte de vanguarda européia. Kandinsky é impensável sem as aldeias medievais que ainda povoavam a Europa antes da 2.ª Guerra Global. Klee descobre a cor nos mercados do norte da África. Schoenberg reivindicava o artesanato dos sons musicais diante dos pretensos mestres da harmonia musical. Lorca reviveu o misticismo da Espanha islâmica na dança e na música cigana... Numa questão importante, eu concordo, entretanto, com essa desconfiança de intelectual global em relação ao popular. A expressão popular mais arcana da arte brasileira é a antropofagia. E os índios tupinambás, que a praticaram com o primeiro funcionário de carreira europeu que chegou às lindas praias deste país, foram os primeiros globalizadores integrais: não lhes importava comer um francês, embora tivesse sotaque alemão. Só se abstinham de comer espanhóis, mas o cronista italiano Benzoni descobriu que era por medo de ficarem envenenados. Serviço25a. Bienal de São Paulo De terça a domingo e feriados, das 9h às 20h. De R$ 6 a R$ 12 (crianças até 6 anos e maiores de 65 não pagam; crianças de 7 a 12 anos e estudantes com carteirinha pagam meia; estudantes de escolas públicas do município de São Paulo não pagam). Visitas monitoradas pelo telefone 5574-59, r. 271. Pavilhão da Bienal. Avenida Pedro Álvares Cabral, portão 3 do Parque do Ibirapuera. Até 2/6.Eduardo Subirats é ensaísta espanhol, professor da New York University e autor, entre outros, de "A Penúltima Visão do Paraíso" (Studio Nobel)

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