Marcos Arcoverde/Estadão
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Uma bermuda no museu

Nos anos 1960, o Museu Nacional parou para ver um estagiário americano usando bermuda

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2022 | 03h00

Corria os anos 60 na sala da Divisão de Antropologia do Museu Nacional (que pegou fogo), eu estava debruçado, lápis em punho e olhar atento, que pulava de um pequeno livro de 102 páginas para uma enorme carta geográfica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Minha tarefa (a primeira de minha vida profissional) era demarcar nesses enormes mapas os 230 grupos tribais assinalados num livro fundamental de Darcy RibeiroCulturas e Línguas Indígenas do Brasil (publicado em 1957 pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais). Um levantamento no qual eram mencionadas todas as sociedades indígenas àquela época conhecidas (230 grupos), indicando, além da língua, o seu grau de contato – isolado, contato intermitente, contato permanente e integrado – junto aos sistemas regionais ou “frentes pioneiras” igualmente caracterizadas que os absorviam. 

Foi nesse opúsculo que tomei consciência de que contatos mais devastadores ocorriam com coletores de castanha, tal como hoje ocorre com mineradores que danificam rios e matas. 

O que isso tem a ver com bermuda? É simples, naqueles anos 60, nos quais o rock era sinal de “americanalhismo”, um estagiário americano, doutorando em Linguística, chegou fagueiro ao museu usando bermuda. E naquele tempo homens não usavam camisas vermelhas, todos trabalhavam usando gravata, e um decote ousado podia desclassificar uma mulher

A barulheira foi tamanha que praticamente todo o museu parou para ver aquele amalucado americano que ousava usar bermuda no museu. A decisão girava entre expulsá-lo por usar um traje indecoroso num sacrossanto Museu Nacional ou passar-lhe um sabão, ensinando-lhe justamente que na Divisão de Antropologia Cultural – cujo alvo era ensinar tolerância aos costumes estrangeiros de um Brasil cheio de indígenas ou humanidades diferenciadas da nossa – usar uma bermuda era intolerável porque, conforme repetia uma funcionária mais nervosa, “ninguém era obrigado a ver perna de homem!”.

Não me lembro mais do desfecho desse drama, mas tenho do meu lado o livro e os mapas.

Mas na minha memória pinta uma parábola que ouvi de Richard Moneygrand em pleno Museu Peabody de Harvard (que não pegou fogo):

Quando disse a um amigo que ia para o Brasil, ele comentou:

– Morei anos lá... É um país muito curioso. No final da tarde, as pessoas se sentavam de pijama na calçada, mas era preciso usar gravata para entrar num cinema. Aí, bandidos viram mocinhos e mocinhos viram bandidos. E vocês dizem que não são revolucionários e tudo ocorre dentro da lei...

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