Uma bela chance para se resgatar grandes filmes

É tempo de homenagens para Nelson Pereira dos Santos - na Flip, no Itaú Cultural, no Rio, com um ciclo chamado Simplesmente Nelson, resgatando filmes pouco conhecidos do grande diretor. Em São Paulo, o Itaú Cultural promove outra programação com filmes que não os do Rio (alguns, pelo menos). São 13, escolhidos pelo diretor e, entre eles, estão obras icônicas do cinema brasileiro, como as adaptações de Graciliano Ramos - Vidas Secas e Memórias do Cárcere.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2013 | 02h17

São filmes semanais, ambos marcados por forte preocupação social e política, mas sem descuidar da estética nem da ética. Vidas Secas pertence à fase do Cinema Novo, quando novos diretores, e Nelson era um deles, superavam dificuldades para (re)descobrir o Brasil, colocando na tela uma imagem mais real (e desconhecida) do País. O redescobrimentro do Brasil. Duas décadas mais tarde, Memórias do Cárcere fecha um ciclo (o da repressão do regime militar) e abre outro (o da redemocratização).

O crítico gaúcho Enéas de Souza foi pioneiro - na primeira edição de Trajetórias do Cinemas Moderno - na formulação de uma análise 'estética' de Vidas Secas. Todo mundo realça sempre a dimensão social, o sertão, a seca, a miséria. Enéas viu e propôs outra coisa - na construção do plano e nos detalhes de iluminação, posicionamento dos atores e objetos, ele viu a influência de Michelangelo Antonioni e seu cinema (ontológico) da solidão.

Essa influência 'antonionesca' volta no mais injustiçado dos filmes do diretor - e se Fome de Amor, que Nelson adaptou de Guilherme de Figueiredo, em 1968, for o verdadeiro maior filme do diretor, do 'autor'? Desta vez, Nelson não tinha o suporte de Graciliano para sustentar a narrativa e fez seu filme mais 'livre'. E a Antonioni somou a influência de Alain Resnais. Plasticidade, sofisticação, desconstrução espacial e temporal. Quatro personagens díspares, dois casais, numa viagem íntima entre Nova York e o litoral fluminense. E, no limite, a América nuestra em transe.

A redescoberta de Fome de Amor não é o menor dos prazeres que o ciclo vai proporcionar. E talvez seja interessante (necessário?) revisar Azyllo Muito Louco e Quem É Beta?, da fase alegórica, quando Nelson refugiou-se em Paraty para seguir com seu cinema e sua vida, numa era de repressão sangrenta. Vai ser possível, também, revisar o neorrealismo de Rio Zona Norte e rir com El Justiceiro, uma espécie de Rio Zona Sul em ritmo de comédia. Cabe lamentar apenas que Nelson não tenha selecionado Na Estrada da Vida, seu tributo ao artista brasileiro como um trabalhador, por meio da dupla Milionário e Zé Rico.

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