Uma batuta da nova geração

Em Salzburg, o jovem maestro canadense Nézet-Séguin mostra por que já é um 'queridinho'

João Luiz Sampaio / SALZBURG, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

Salzburg. Jovem maestro canadense Nézet-Séguin mostra por que já é um 'queridinho'                  

 

 

 

 

 

Aos 10 anos, ele disse aos pais: "Quero ser maestro." Hoje, com 35, o canadense Yannick Nézet-Séguin ainda não sabe o que o levou à precoce decisão. Mas já é um dos mais celebrados maestros da nova geração. Depois de dez anos comandando a Orquestra Metropolitana de Montreal, está agora à frente da Filarmônica de Roterdã; nos próximos meses, assume a Orquestra de Filadélfia, uma das Big Five - grupo de elite da música sinfônica americana. Acaba de fazer sua estreia no Metropolitan de Nova York e, depois de alguns concertos, já é o principal convidado da Filarmônica de Londres. Em Salzburg, comandou duas das cinco montagens de ópera da temporada - Don Giovanni, de Mozart, com a Filarmônica de Viena, e Romeu e Julieta, de Gounod, com a Orquestra do Mozarteum. "Foram três dias folga em seis semanas de trabalho", diz. "Mas estou feliz." A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estado no final da tarde de sexta, antes de reger a oitava récita de Romeu e Julieta.

 

Como foi trabalhar a ópera Don Giovanni, de Mozart, que está entre as especialidades da Filarmônica de Viena? Como trazer algo novo à interpretação?

Eles sabem essa música do início ao fim, têm uma sonoridade especial para esse repertório. E isso é muito bom - e ruim, porque coloca em você uma pressão enorme. Perante isso, o que tentei fazer foi simplesmente ser o mais honesto possível com a partitura. Hoje, quando vai se reger Mozart, todo mundo quer ter um conceito, tem que ser barroco, moderno, romântico, com vibrato, sem vibrato. Eu decidi não me preocupar com isso, não aplicar nenhum princípio e deixar a música falar comigo, à medida em que ouvia o que eles me traziam.

 

Mozart e Haydn terão grande espaço em suas temporadas em Filadélfia, apesar de serem autores que acabaram ficando na mão de conjuntos e maestros especializados no clássico e barroco, deixando de lado as orquestras tradicionais. Por quê?

Meu próximo concerto em Filadélfia terá Haydn e Mahler. Eles fazem pouco Haydn e Mahler, por sua vez, é uma das especialidades do grupo. Isso mostra os dois ângulos que eu quero trabalhar. Acho que mais Mozart e Haydn são fundamentais para qualquer orquestra. Minha geração já não deve estar tão preocupada com o nicho dos especialistas. Eles nos ensinaram muita coisa, mas orquestras tradicionais têm que pegar esse repertório de volta e inserir o aprendizado em uma cultura sonora mais ampla. Como músico, é o que mais me interessa: poder explorar os 400 anos de história da música que tenho à minha disposição, estabelecer relações entre séculos, gerações distintas. Não precisa ser uma proposta conceitual, intelectualizada. É algo que deve ser espontâneo.

 

Você faz parte da geração de maestros que vai moldar a atividade sinfônica pelos próximos 30, 40 anos. Qual o sentido por trás da existência de uma orquestra? Qual será o principal desafio dessa geração?

Não sou tão pessimista como muitos de meus colegas. Especialmente no que diz respeito à ópera, ela nunca esteve tão bem, com público e mídia reagindo sempre. Claro, há a questão do dinheiro, da estrutura de trabalho. Não é um problema pequeno, mas é só a ponta do iceberg. Na ópera, há sempre novas montagens, novos cantores, e isso renova o interesse. Mas, e em uma orquestra? Uma sinfônica toca o mesmo repertório, para a mesma plateia, no mesmo palco, com a mesma cara. Com o tempo, tudo se congelou. Uma orquestra é tratada como uma estação de trem, um ponto de ônibus, é algo que simplesmente está lá. Não está mais viva. Esse é o problema principal e apenas agora estamos começando a lidar com ele. Estamos sempre falando em atrair novos públicos, mas a questão não é para quem e, sim, para que. É um desafio enorme e não tenho respostas prontas. Mas é bom que a gente comece a se perguntar ao menos.

 

Você tem viajado o mundo como maestro convidado, em uma agenda já repleta de compromissos. Em que medida isso atrapalha o estudo, a preparação de um novo repertório? Quando essa situação deixa de ser excitante e passa a ser um problema?

Tenho um problema lindo que Deus me deu: muita energia. Isso é ótimo, porque eu sinto que posso fazer o que eu quiser. Mas isso também é um problema. Sou curioso, tenho interesse em um grande repertório, quero estudar, aprender. Foi aí que entrou o gerenciamento profissional de um empresário e me deu um norte. Deixei então de pensar em termos do que sou capaz de fazer e, sim, no que é melhor eu fazer. Eu tive muita sorte de ser convidado por todas essas orquestras, mas estar com um grupo diferente por semana é angustiante para mim. A maneira segundo a qual eu trabalho com os músicos necessita de tempo. Não consigo aplicar a mesma receita para todas as orquestras, gosto de conhecê-las, entender sua lógica interna, sua alma. E para isso é preciso tempo. É por isso que depois desses anos atuando muito como convidado, nas próximas temporadas vou limitar minhas atividades a quatro orquestras com as quais tenho boa relação - Filadélfia, Roterdã, minha orquestra canadense e a Filarmônica de Londres, onde sou principal regente convidado. E, além disso, uma ópera por ano no Metropolitan. Acho que, nesse momento, é o melhor para mim. Depois, veremos o que acontece.

 

INTERVALO

Última hora

Sustos de todo grande festival. O cantor Jonas Kauffmann cancelou o aguardado recital que faria na semana passada em Salzburg, deixando a direção artística com um pepino: nenhum dos nomes de fama equivalente à do tenor alemão quis entrar de última hora como substituto do colega. A solução foi recorrer ao barítono Michael Volle, que já estava na cidade, participando de uma outra montagem: Lulu, de Alban Berg.

Números que falam

O Festival divulgou na sexta-feira os números da edição deste ano. O público foi de 249.730 pessoas, em 192 apresentações e ensaios, vindas de 72 países. A verba obtida com a venda de ingressos ficou em torno de 24, 5 milhões de euros. A lotação média dos teatros foi de 95%.

"Bravo! Bravo!"

O maestro Bernard Haitink foi ovacionado durante dez minutos após seu concerto com a Filarmônica de Viena, na manhã de sexta-feira aqui em Salzburg. Os músicos recusaram-se a levantar, deixando, com isso, que ele recebesse todos os aplausos sozinho. No programa estava a Quinta Sinfonia de Bruckner.

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