Ernesto Rodrigues/AE
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Uma babel em construção

Um ano após a morte de José Mindlin, USP diz que nova biblioteca será aberta em 2012 e prepara livros para a mudança

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2011 | 00h00

A casa de José Mindlin vivia aberta. Amigos e pesquisadores eram sempre bem-vindos. Podiam circular entre as estantes, ver de perto e, não raro, ter nas mãos um exemplar autografado de Machado de Assis, uma primeira edição de Hans Staden, datada do século 16, um original de Vidas Secas, com anotações do próprio Graciliano Ramos. Dono daquela que é considerada a mais preciosa coleção bibliográfica privada do País, o bibliófilo era o avesso da imagem do colecionador ciumento. Não fazia questão de esconder seus objetos de desejo nem de enclausurar-se. Gostava de receber, mostrar os livros e falar sobre eles.

Passado um ano de sua morte, muita coisa mudou nessa coleção. As centenas de periódicos que ficavam guardadas em uma casa ao lado da sua já foram transferidas. Estantes trocaram de lugar. Não existem mais poltronas ou mesas para receber visitantes. E poucos são os pesquisadores que hoje podem consultar essas raridades.

"Estamos em um período de transição", diz Cristina Antunes, curadora do acervo. Doada à USP em 2006, a biblioteca se prepara para a mudança, que já tem data marcada para acontecer: 25 de janeiro de 2012. É no dia do aniversário de São Paulo que será aberto o prédio da Biblioteca Guita e José Mindlin na cidade universitária, garante o historiador Pedro Puntoni, coordenador do projeto.

Visitada pelo Estado, a construção já está em fase de acabamento. Com todas as paredes erguidas, o prédio de 14 mil m² começa agora a receber elevadores, instalações elétricas e dutos de ar-condicionado. Além da torre de livros - que terá três andares revestidos de vidro -, o complexo prevê ainda auditório, espaço de exposições e um café. Na mesma área, também será inaugurada posteriormente uma sede para o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e sua valiosa biblioteca, com mais de 140 mil volumes.

"Será a mais importante Brasiliana de uma universidade em escala mundial", comenta Puntoni. Ainda que tenha conseguido reunir uma notável seleta de autores estrangeiros, foi pela sua Brasiliana que Mindlin fez fama. E é justamente essa parcela, equivalente à metade de sua biblioteca, que foi doada à USP.

Cerca de 70% dos pesquisadores que recorriam ao bibliófilo, vinham atrás desses títulos referentes ao Brasil, uma coleção que abarca ainda o acervo deixado por outro colecionador, Rubens Borba de Moraes.

Templo dos livros. Os planos para o espaço, porém, transcendem os estudos brasileiros. Segundo Puntoni, a intenção é criar um centro que tenha os próprios livros como foco. "É uma grande coleção para pesquisas sobre o livro em si: a história da tipografia, o design." Assinado pelos arquitetos Eduardo de Almeida e Rodrigo Loeb (neto de Mindlin), o projeto contemplará ainda um centro de livros raros, que estará apto a receber e restaurar adequadamente todos os exemplares dessa natureza espalhados pelas bibliotecas da universidade.

Além dos livros, caberá à tecnologia um lugar de especial relevo dentro da instituição. Se as raridades de seu acervo ficarão protegidas em uma torre com acesso restrito a funcionários e pesquisadores, a intenção é que todos os visitantes possam conhecer os 17 mil títulos, quase 40 mil volumes, por meio de dezenas de iPads, que já estão sendo comprados.

Enquanto as obras não ficam prontas, correm em paralelo os preparativos para receber os exemplares no novo endereço. "Já entramos em contato com empresas especializadas em transporte de obras de arte. Garantiram que conseguem levar tudo em uma semana", comenta Cristina Antunes, há quase 30 anos responsável pela biblioteca de Mindlin. Maior conhecedora do acervo, Cristina será transferida para a USP assim que a Brasiliana migrar. "A ideia da mudança ainda me provoca pesadelos. Vai ser difícil me despedir", prevê a guardiã, que hoje coordena a digitalização e supervisiona os detalhes da transferência.

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