Tolga Bozoglu/Efe
Tolga Bozoglu/Efe

Uma arte urgente

Aberta ontem e sob o tema ''Sem Título'', a 12ª edição está focada na política e se inspira no cubano González-Torres

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2011 | 00h00

ISTAMBUL

Isimsiz, em turco, quer dizer "sem título" e é este o tema da 12.ª Bienal de Istambul, inaugurada ontem para convidados na Turquia e que a partir de amanhã poderá ser vista pelo público.

"A exposição é sem título porque o significado está sempre mudando no tempo e no espaço", diz o curador brasileiro Adriano Pedrosa, parafraseando o artista cubano-americano Félix González-Torres (1957- 1996), escolhido como "inspiração" de toda a mostra, que em 2009 teve como mote "O que mantém a humanidade viva?".

A edição da bienal turca, com curadoria de Pedrosa e do costa-riquenho Jens Hoffmann, é limpa e ordenada e traz a presença maciça de artistas do Oriente Médio e também de criadores latino-americanos. É uma mostra que quer tratar de arte e política, mas numa linhagem intimista, sem grandes alardes.

Temas como violência, história, cruzamento de fronteiras e a homossexualidade de González-Torres, que não comparece, propriamente, com obras no evento, são os ramos da 12.ª Bienal de Istambul, que ficará em cartaz até 13 de novembro. "É importante o fato de González-Torres ser um artista latino-americano entre o Norte e o Sul, gay, e que subverte as tradições modernistas da abstração ou do minimalismo com conteúdos urgentes, pessoais, políticos", afirma Adriano Pedrosa sobre a eleição do artista cubano como vetor da exposição.

O caráter intimista desta Bienal, considerada uma das mais independentes e experimentais da Europa, já se dá, à primeira vista, por sua expografia. Pela primeira vez, a mostra, feita a partir do montante de 2 milhões (recursos, na maioria, vindos do poder privado turco) está concentrada nos prédios 3 e 5 do complexo conhecido como Antrepo e não espalhada pela cidade.

Pelo projeto expográfico do arquiteto Ryue Nishizawa (da famosa dupla japonesa Sanaa), os espaços expositivos se transformaram em espécies de contêineres nas cores cinza e branca, leves para o percurso dos visitantes.

Uma maioria de trabalhos sobre papel, fotografias e objetos dá o tom das cinco mostras coletivas da Bienal, indicadas pelos nomes de trabalhos de série de González-Torres: Sem Título (Abstração), Sem Título (Passaporte), Sem Título (História), Sem Título (Morto por Tiro) e Sem Título (Ross) - este, o nome do companheiro do artista cubano que morreu em 1991, vítima da aids. As exposições ramificam-se em pequenas mostras individuais, destacando, assim, alguns participantes.

Já a seleção de artistas brasileiros, até então não divulgados pelos curadores, mistura gerações e, curiosamente, aposta em jovens (e criadores de raiz conceitual) como Jonathas de Andrade (nascido em 1982) - que está em dois segmentos da exposição, representado por suas instalações intimistas feitas com fotografias e páginas de diários -, Clara Ianni (nascida em 1987) e Theo Craveiro (nascido em 1983). Mas há a presença de nomes já consagrados, como Leonilson, Lygia Clark, Lygia Pape, Adriana Varejão, Jac Leirner, Rosângela Rennó, Renata Lucas e Claudia Andujar.

DESTAQUES DA BIENAL

Três Tiros

Um dos momentos de destaque e sutileza do segmento Sem-Título (Death by Gun) é o diálogo entre a capa pop que o artista Roy Lichtenstein criou para a revista Time em 1968 sobre o título Gun In America; três fotografias jornalísticas sobre a execução de um vietcongue em Saigon; e os registros da série Shoot, de Chris Burden, documentando uma performance com tiro em 1971.

Formalistas

Na mostra Sem-Título (Abstração), com grande presença de artistas brasileiros, a sala com a obra Falha (2003), de Renata Lucas, é a criação de um tablado conceitual com formas geométricas de madeira que se liga com os desenhos com retângulos e triângulos de 1977 da húngara Dóra Maurer, figura histórica da Bienal.

Frutas

Maçãs estão disponíveis para o público na obra Sem Título (Natureza-Morta Adiada), do colombiano Gabriel Sierra. A mesma fruta aparece na caixa de vidro com formigas de Theo Craveiro e o cubano Wilfredo Prieto corta uma melancia em Politicamente Correto, de 2009.

História

Em There Has Been a Miscalculation, da mexicana Julieta Aranda, um compressor faz revirar, dentro de uma caixa de acrílico, uma massa de livros de história triturados.

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