Uma aposta no cosmopolitismo

A vitória de O Artista era esperada. O que não se esperava é que vencesse tão bem. Afinal, das cinco categorias consideradas principais (filme, direção, ator, atriz e roteiro), levou três. A de ator já era dada como perdida para George Clooney. Cogitava-se que a direção ficaria com Scorsese, de modo a equilibrar um pouco o resultado. Mas não. A de ator ficou com Jean Dujardin e a direção, com Hazanavicius. A vitória, assim, foi acachapante. Hugo Cabret ficou com um bom número de prêmios, mas todos no segmento técnico. Os troféus "artísticos" penderam todos para a produção franco-belga. O que torna essa edição do Oscar digna de entrar para a história. Menos pelo filme, em si, e mais pelo cosmopolitismo do resultado.

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2012 | 03h08

Claro, a vitória da França é de importância inestimável, algo a ser valorizado. Basta pensar o que aconteceria por aqui se o Brasil vencesse, não o Oscar de melhor filme estrangeiro que perseguimos como ao Graal, mas o de melhor filme, pura e simplesmente. Talvez tivéssemos de providenciar uma semana extra de feriados apenas para acomodar as festividades. É possível que a França não tenha a mesma obsessão por reconhecimento, mas, ainda assim, não deixa de ser um marco, mesmo para eles. Ainda mais para um país que, por ironia, é um dos poucos que conseguem manter seu mercado interno saudável, defendendo-se da invasão indiscriminada dos blockbuster norte-americanos. (O mercado interno francês é ocupado entre 40% a 50% pelo filme nacional contra 10% a 15% no caso brasileiro.) Desse modo, a vitória de O Artista é algo de alta simbologia, por mais que por trás da vitória esteja um produtor esperto. Cinemas que se levam a sério acabam reconhecidos, mesmo pelo maior concorrente.

Outro aspecto a ser valorizado é o prêmio ao iraniano A Separação. Há o aspecto político da coisa, que não deixou de ser contornado, com sutileza, no discurso do vencedor Asghar Fahardi, que chamou a atenção para o peso cultural do seu país, em geral ignorado diante da contingência internacional. Sem ser diretamente político, A Separação desvenda tamanha sutileza na apreensão de sentimentos contraditórios que só pode ser obra de uma cultura sofisticada. Portanto, digna do nosso respeito e admiração. O fato de a Academia ter reconhecido a qualidade estética dessa obra apenas a valoriza como instituição. Mostra que sabe ir além dos seus limites, bastante devassados pela impiedosa reportagem do Los Angeles Times sobre a sua composição (94% são brancos, 77%, homens, mais da metade passou dos 60 anos).

Com tudo isso, essa Academia envelhecida, branca e masculina, em tese pouco porosa à novidade, soube reconhecer a qualidade de A Separação, que não era apenas o melhor concorrente estrangeiro do Oscar, mas, talvez, o melhor dos filmes que lá estavam em julgamento. Isso para não falar de A Árvore da Vida, o esplêndido e ambicioso trabalho de Terrence Malick, que venceu o Festival de Cannes, mas não pareceu merecedor de nenhuma das três estatuetas a que estava indicado. Santo de casa não faz milagres. A Academia reconhece a arte até certo ponto, mas Malick também já seria exagero.

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