Uma academia informal

Drummond não queria saber da ABL, mas era habitué de outra confraria literária

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2017 | 02h00

Eu sabia da inoxidável aversão de Carlos Drummond de Andrade à ideia de empacotar-se no fardão dos imortais – mas não resisti à tentação de provocá-lo, numa entrevista que fiz para a IstoÉ, em abril de 1985, da qual só uma fração foi publicada.

O senhor, cutuquei, é refratário à Academia Brasileira de Letras e, no entanto, pertence a uma confraria de escritores que, como a outra, se reúne toda semana, com chazinho, inclusive, embora menos alentado. Não seria uma forma de fazer vida acadêmica?

Era referência ao Sabadoyle, assim batizado (por Raul Bopp, o poeta de Cobra Norato) porque se realizava, aos sábados, no apartamento do bibliófilo Plínio Doyle, em Ipanema. 

Mais do que frequentador, aliás, Drummond está na origem daquela roda, nascida, diz a história, de uma incursão que ele fez à biblioteca ao amigo, em 1964. 

O dia em que isso aconteceu, 25 de dezembro, não era o mais indicado para escarafunchações bibliográficas, menos ainda quando feitas em lar alheio que, nessa data, em geral se abre apenas a familiares e ao Papai Noel. O inusitado da pesquisa natalina (cujo objeto desconheço) acabou dando asas à versão de que, deglutido o panetone doméstico, Drummond precisou de pretexto para escapulir do apartamento onde vivia com a mulher, Dolores, na rua Conselheiro Lafaiete, em Copacabana, e correr para os braços de Lygia Fernandes, o famoso amor, cantado em soneto, no qual ele derrapou na curva perigosa dos 50. A ser verdade o que se murmura, jamais se saberá que outra desculpa o poeta teria dado caso Lygia e Plínio Doyle, convenientemente, não morassem na mesma rua, a Barão de Jaguaripe.

Mas voltemos à provocação que fiz a Drummond. Ele não se chateou quando insinuei que o Sabadoyle seria a sua academia de letras, nela faltando apenas mordomias como onde cair morto, ou seja, um mausoléu equivalente ao da ABL no cemitério de São João Batista. O poeta embarcou na brincadeira: ao contrário do que acontece na Casa de Machado de Assis, na academia de Plínio Doyle ninguém ganhava jeton, aqueles cobres que os imortais embolsam por comparecimento às reuniões, não só às quintas-feiras – simpática bufunfa que, segundo leio na piauí, anda em torno de 1 mil reais por evento. “Já provocamos o Plínio”, sorriu Drummond, “‘Vá, dá um jeton pra nós, estamos aqui há tantos anos...’.” 

Em seguida, jogou farpas divertidas. Numa sessão da ABL, caricaturou, o assunto podia ser o acadêmico fulano, que andou gripado mas felizmente se restabeleceu. Ou aquele outro que, de volta da Europa, trouxe o que contar. 

Depois de morder, o poeta assoprou: “Não falo mal da Academia como instituição e, digo mais, eu respeito a Academia, que já fez e faz muitas coisas boas, como a publicação de clássicos brasileiros.” Breve pausa para ir ao ponto: “É que eu não tenho mesmo espírito acadêmico. Mas, na ABL, tenho amigos, os mais queridos” – e entre estes citou Cyro dos Anjos e Afonso Arinos, frequentadores, também, do Sabadoyle.

A roda, nos primeiros tempos, reunia-se na casa onde Plínio morava como a mulher, Esmeralda, e a filha, Sônia, no 62 da Barão de Jaguaripe. Cresceu tanto que, a certa altura, o anfitrião precisou comprar apartamento no prédio ao lado, o 74, para lá transferindo os 20 mil volumes de sua biblioteca, rica em literatura brasileira e periódicos antigos e, com ela, o forrobodó semanal, cujo foguinho acolhedor só iria se apagar em 26 de dezembro de 1998, dois anos antes da morte do anfitrião, aos 93. 

As “charlas sabatinas”, como as rotulou Drummond, sequer tinham nome, até que Raul Bopp as batizasse, em abril de 1974. Dois anos antes, surgira a ideia de registrar-se em ata cada encontro, em prosa ou verso, e para isso Plínio Doyle providenciou um livrão caprichado. A aparente formalidade não veio empertigar a roda, composta quase toda por marmanjos (bem humorada, Sônia Doyle falou em “Academia do Bolinha”). Além dos já citados, e de muitos outros – o comparecimento oscilava entre os 15 e os 20 –, lá batiam ponto Pedro Nava, Alphonsus de Guimaraens Filho, Prudente de Morais Neto, Cândido Mota Filho, José Américo de Almeida e o jornalista Homero Senna, a quem se deve um livro saboroso, O Sabadoyle – Histórias de uma Confraria Literária. 

Finalidade? Nenhuma. “Apenas um grupo de pessoas que se estimam, que querem se ver, trocar informações, bulir em papelada velha e falar de tudo – até de literatura”, resumiu Nava. Na verdade, perseguiam todos um objetivo ambicioso, expresso em ata por Drummond: o que no Sabadoyle se buscava era o “exercício desta coisa que se vai tornando rara ou impossível na cidade de hoje: a conversa – a pura, simples, fantasista, descompromissada conversa entre amigos e desconhecidos ou mal conhecidos, que se tornam amigos por força das aproximações aqui estabelecidas”.

A roda ia se formando pelo meio da tarde e, no começo da noite, Plínio Doyle podia apagar as luzes. Carlos Drummond de Andrade costumava se mandar mais cedo, quando os camaradas ainda manducavam biscoitos e bebericavam o café da Idalina. Quem sabe tinha o poeta mais o que fazer, não exatamente no terreno das letras, mas por ali mesmo, em outro apartamento da Barão de Jaguaripe? 

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