Uma abertura total para o realismo no Masp

Museu abre mostra com 120 obras que traduzem representações do mundo real, criadas entre 1860 a 1960

Maria Hirszman, O Estado de S. Paulo

15 de maio de 2009 | 10h45

Ousada, a exposição Arte na França 1860-1960: O Realismo, no Masp, propõe-se a três grandes objetivos: apresentar um panorama amplo da pintura francesa, que percorre um século de produção e debate sem igual; colocar em pauta o tema, quase sempre polêmico, do realismo; e ampliar as possibilidades de leitura a partir da aproximação de coleções do Brasil, da França e de Portugal. Além disso, ainda procura inserir a produção nacional do período no contexto da escola francesa e mostra um sucinto panorama da atual produção pictórica francesa, dos anos 90 e 2000, como maneira de reafirmar seu retorno, após grande hiato em que apenas os novos meios pareciam ter vez no país.

"Como representar o mundo? Essa é a questão que nos interessa verificar aqui", explica Eric Corne, curador independente que vem trabalhando há dois anos nesse projeto, um dos destaques do Ano da França no Brasil. Não se trata, segundo ele, de enfocar o realismo enquanto movimento, mas sim de lidar com as várias aberturas do termo. "O realismo procura uma semelhança com o real, uma coincidência entre um pensamento social e uma imersão física no mundo", sintetiza.

Certamente a figura de Gustave Courbet, que em 1855 escreveu o manifesto no qual defende os princípios de uma arte viva, atuante, é vital. Tanto que o primeiro impulso de Corne foi iniciar a mostra com sua tela Origem do Mundo. O empréstimo de uma obra desse calibre, na qual o pintor representa da maneira mais crua possível o sexo feminino, mostrou-se inviável. Em contrapartida, o Museu d?Orsay cedeu um conjunto significativo de obras, bem como outras instituições francesas, tais como o Beaubourg e o Museu Nacional de l?Orangerie. Somando-se esses empréstimos às obras dos dois pilares centrais da mostra, o acervo do Masp e o da Coleção Berardo, de Lisboa, chega-se a mais de 120 trabalhos.

De forma significativa, a exposição acabou tendo uma dupla abertura: de um lado do corredor está um pequeno conjunto de telas de Jean-Baptiste Corot, espécie de pai do realismo e surrealismo franceses e, diante de si, uma natureza-morta assinada por Pedro Alexandrino, mestre brasileiro associado à tradição da pintura acadêmica do século 19. Os diálogos e contraposições estabelecidos nesse primeiro núcleo seguem sendo a tônica de toda a mostra. A montagem, bastante arejada, auxilia esse processo de encontro entre as obras, assinadas pelas estrelas de primeira grandeza da arte moderna.

Organizada de forma cronológica, a exposição é um passeio por diferentes expressões e poéticas, uma trajetória que leva do hiper-realismo, tributário da fotografia, de Rosa Bonheur, à arte popular de um Douanier Rousseau ou José Antonio da Silva. Basta citar alguns dos nomes presentes para que se tenha uma ideia da diversidade proposta: Monet, Matisse, Cézanne, Renoir, Van Gogh, Giacometti, Almeida Junior, Anita Malfatti, Iberê Camargo e Vieira da Silva.

Núcleos são dedicados às diferentes vanguardas, ao retorno à ordem do período que antecede a 2.ª Guerra Mundial e também a produção brasileira entre os anos 30 e 50, período um tanto relegado e em relação ao qual Corne tem especial apreço. Ele avalia que nesse período, tanto na América como no Brasil, "o realismo é também uma emancipação da supremacia europeia".

A partir dos anos 60, as obras parecem problematizar a crise por que passavam os modelos de representação e a própria França, que perdia seu papel de centro hegemônico das artes para os EUA. Surge o nouveau réalisme e, por outro lado, a representação da realidade parece diluir-se numa crescente abstração. A mostra terminaria aí, não fosse o desejo de Corne de trazer alguns exemplos mais recentes da pintura francesa, que segundo ele passa por uma retomada após décadas de crise.

CURSO

Os interessados em aprofundar seu conhecimento sobre as questões abordadas na mostra podem fazer curso organizado pelo Carrefour. Informações e inscrições: tel. 5180-4622. O patrocinador também está distribuindo 5 mil convites para a mostra para alunos da rede pública e clientes.

Preste Atenção...

...na pintura Mulher Nua com Cão, de Gustave Courbet, uma das obras centrais da exposição. Ladeada por outros dois magníficos nus femininos, assinados por Manet e Renoir, a tela pintada no início dos anos 1860 sintetizaria aspectos centrais da produção do autor. Ali se fundem alguns dos gêneros mais trabalhados por ele, com destaque para o tratamento de fundo, no qual se vê uma transição, uma colagem instigante entre a paisagem natural e um fundo composto e cenográfico. A questão da relação entre tradição e busca da realidade corporificada na pintura se faz presente. "É um quadro de representação, que dialoga com toda uma tradição, com mestres como Ticiano e, ao mesmo tempo, é uma mulher de verdade (no caso Léontine Renaude, sua amante e modelo) que está ali representada", diz Corne.

Serviço

Arte na França 1860-1960: O Realismo. Masp. Avenida Paulista, 1.578, tel. 3251-5644. Das 11 h/ 18 h (5.ª até 20 h). R$ 15. Até 28/6. Abertura hoje, para convidados

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