Um violinista e uma pianista em estado de graça

No CD 'Delírio', o italiano Emmanuele Baldini e a brasileira Karin Fernandes se reúnem numa gravação de alta qualidade

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2014 | 02h06

Como foi possível vivermos até hoje sem ouvirmos estas obras? Escutei o novo CD do violinista Emmanuele Baldini e da pianista Karin Fernandes antes de ler o ótimo texto do folheto interno de Maurício Ayer. E me fiz a mesma pergunta com a qual ele abre seu comentário. A sonata Delírio, que dá título ao CD, a primeira de Glauco Velásquez (1884-1914), já provoca um choque, pela modernidade e a absorção do vocabulário romântico-impressionista europeu, recriando-o com harmonias ousadas para a época. Sempre de modo pessoal. A impressão reforçou-se porque pulei a sonata de Miguez e fui direto para a segunda sonata de Velásquez. De novo, o refinamento de uma escrita musical da qual não deveriam nos ter afastado, em nome do cânone oficial da História da música brasileira do século 19.

Em ambas as sonatas de Velásquez, há o gosto pelos andamentos lentos - no máximo, andantes e só uma escapada para um agitado final da sonata n.º 1. O lento expressivo desta sonata é notável: uma cantilena de linhas longas, ou melhor, um lied. Assim como o Adagio da sonata n.º 2. Movimentos lentos curtos, menos de 4 minutos, em relação aos encorpados finais, de 10 minutos cada.

O cuidado com a dinâmica, a emissão perfeita e o sentido de fraseado de Baldini são excepcionais. Crescem por causa do piano refinado de Karin Fernandes (confira a bela e diáfana abertura do piano solo no Moderato inicial da sonata nº. 1, ou o começo mais virtuosístico do Finale da segunda).

Já envolvido pela dupla qualidade - das obras e das execuções -, lembrei da sonata de Leopoldo Miguez (1850-1902). Obra idiomática (ele era violinista) de fôlego, de 30 minutos e 4 movimentos, é outra surpresa. Todo mundo o conhece como autor do Hino da Proclamação da República e primeiro diretor do Instituto Nacional de Música, que o novo governo o encarregou de criar e modelar. E ele o fez implantando um modelo alemão de formação de músicos. Assim, à dominante vida musical lírica acrescentou-se um vasto repertório romântico francês e germânico. Um movimento parecido ocorreu na Itália com a geração dos 80 (Martucci, Casella, Malipiero, Respighi, entre outros) valorizando a música instrumental, sinfônica e camerística.

Sua bela e muito bem construída sonata segundo os melhores critérios do romantismo europeu é exemplo desta assimilação inteligente. Tem vida própria e fluência musical invejável. Novamente, Emmanuele e Karin estão em estado de graça. Impactam no encorpado Allegro inicial de 11 minutos, esbanjam refinamento no Andante expressivo e sobretudo no delicioso Scherzo. O Finale, de tão bom, me fez retornar à pergunta inicial. Por que se quis jogar no lixo a música produzida por brasileiros que não tivesse uma síncope aqui ou ali?

Gravações de alta qualidade, como esta de Emmanuele e Karin, são fundamentais para nos devolver esta música sensacional, que é nossa.

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