Um verdadeiro temperamento de cineasta

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2011 | 03h07

Os Três? De novo? Não, agora sem reality show e mais denso, se não realmente original. A primeira coisa boa de Amores Imaginários é que o filme de Xavier Dolan não se preocupa em estabelecer nem sustentar comparações com o clássico dos clássicos sobre triângulo amoroso, Jules e Jim (Uma Mulher para Dois), de François Truffaut. Embora jovem, 21 anos na época, Dolan tem preocupações próprias e até uma visão crítica das relações entre homens e mulheres.

Embora homossexual de carteirinha, ele rejeita o rótulo de cineasta gay. Seria fácil assumi-lo. Afinal, Amores Imaginários é sobre um rapaz e uma garota que desejam outro rapaz. Na entrevista acima, Dolan, que faz um dos vértices do seu triângulo, define o personagem de Niels Schneider. Ele quer ser amado, mas não ama ninguém. O filme passa a ser sobre como os outros dois se relacionam com Niels.

A história do trio é entremeada por depoimentos, como se Dolan estivesse querendo ampliar sua discussão sobre amores imaginários ou impossíveis. Uma garota fala de relacionamentos pela internet, outra tenta explicar como é se interessar por quem não se interessa pela gente. "Você se sente uma nulidade", ela diz.

É o xis da questão. Como objeto de desejo, Niels Schneider não se fixa em Monia Chokri nem em Dolan. Schneider é a imagem da beleza - isso mesmo, uma imagem. Uma imagem a gente admira, tenta capturar, mas não prende. Amores Imaginários propõe, assim, uma discussão quase filosófica. Que seja produto de um autor tão jovem é a prova - mas era necessária? - de que se pode aprender, sim, com a juventude.

Amores Imaginários não se propõe a reinventar a linguagem. Talvez, no anterior J'ai Tué Ma Mère, Eu Matei Minha Mãe, Xavier Dolan, aos 19 anos, estivesse mais interessado em manifestos estéticos. Não por acaso, ele recebeu vários prêmios, inclusive um dos críticos, em Cannes. Agora, sentada a poeira da chegada virulenta, o diretor parece se preocupar mais com os personagens do que com a forma.

Mesmo assim, muita gente implica com Amores Imaginários. O filme é muito estilizado, lento, abusa das lentes, das referências, etc. Houve até quem dissesse que Dolan fez a versão afetada de Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci. O filme é lento, tem o ritmo que a história precisa, nem mais nem menos. Você pode estranhar, até não gostar, mas Dolan possui um verdadeiro temperamento de cineasta.

E, numa coisa, apesar de todas as diferenças, o filme se aproxima de Os Três, ou de A Chave de Sara, com cuja história - o Holocausto -, não tem nada a ver. Todos são filmes de atores (Amores também é de 'autor'). N'Os Três, é difícil desgrudar o olho de Juliana Schalch, mas seria injusto negar que seus companheiros de elenco, Gabriel Godoy e Victor Mendes, pela entrega, também são muito bons. N'A Chave, por melhor atriz que seja Kristin Scott-Thomas, o que o espectador retém é o rosto angustiado de Sara, da menina Mélusine Mayance, e de como ele se desespera na tentativa de salvar o irmão por quem se sente responsável.

Em Amores, Niels Schneider é um Apolo, mas Monia, como atriz, é a mais talentosa do trio. Ela não parecia tão interessante (nem tão impressionante) quando apareceu em A Era da Inocência, de Denys Arcand, em 2007. A imposição de Monia passa a ser outras das contribuições de Xavier Dolan.

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