Um verão sob o sol e a dor sem fim

Em Cavalos Roubados, as recordações são a única companhia do protagonista

Carlos de Brito e Mello, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

Testemunhar o choque dos pássaros contra a janela da casa, enquanto descreve a transformação das cores do céu no início da manhã, tornou-se hábito para Trond T., tanto quanto se tornará para o leitor interessado no romance Cavalos Roubados, de Per Petterson, primeira obra lançada no Brasil do premiado escritor norueguês. Não há como escapar a essa vinculação incondicional e irrestrita que estabelecemos com o personagem principal e narrador a quem, inclusive, o livro é dedicado. Para Trond T., diz a dedicatória, à qual poderíamos acrescentar, empregando palavras retiradas do próprio texto: por entrar no armazém da memória e encontrar a prateleira certa com o filme certo e desaparecer dentro dele.

Com 67 anos, Trond T. decidiu morar sozinho em uma casa localizada à beira de um lago no interior da Noruega. Faz-lhe companhia a cadela Lyra, enquanto as atividades cotidianas lhe preenchem parte do ano de 1999. O narrador tem consciência, porém, de que a administração do tempo diz respeito também ao que será lembrado: "Cheguei à conclusão de que agora o tempo é importante para mim".

Ao desaparecer naquilo que lembra, o narrador de Cavalos Roubados fica impedido de empregar a lembrança como um instrumento do qual poderia, apenas utilitariamente, se servir, e se torna parte constituinte da própria memória, instalado que está na cadeia de ocorrências que recorda. Na trama, a recuperação dos acontecimentos, marcada pela valência emotiva e pelo subjetivismo, enfeixa-se em torno de uma única voz narrativa, a de Trond: "Sou minha própria companhia, e isso é suficiente", diz.

Recuperando perdas e descobertas, o narrador retorna diversas vezes a 1948, três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando ele, então com 15 anos de idade, passa o verão na companhia do pai em uma região também do interior do país, próxima à fronteira com a Suécia. Lá, protagoniza com o melhor amigo o roubo de cavalos mencionado no título do livro. Sua relação com a natureza mostra-se, desde o início, íntima. A vibração dos cascos dos animais, o som das águas correntes e outros estímulos atingem-lhe com impacto. O sol, quando muito forte, se misturado ao cheiro da floresta, pode deixá-lo lânguido e mole. Per Petterson é exaustivo em mostrar como se desenvolve o trabalho meticuloso e aguçado da percepção por meio de um narrador poroso a tudo que o rodeia. No romance, perceber e lembrar são ações que se entrelaçam e se determinam.

Eventos de 1999 e de 1948 são intercalados a cenas que dão conta da ocupação alemã na região durante a guerra, do passado secreto do pai e de uma variedade de episódios que, se não podem ser inteiramente recuperados pela lembrança, são pela imaginação: "Posso imaginar a cena", avisa o narrador. Embora marcada por constantes saltos temporais, a narrativa não perde de vista o horizonte de onde herda a linearidade (e reconstituí-la se torna um jogo relativamente simples de espera pelas informações do texto e de encaixe) e não admite o tropeço ou o extravio, preenchendo, de maneira bastante homogênea, as lacunas deixadas pela rememoração.

Em Cavalos Roubados, a presença totalizante e absorvente do narrador e o recurso à imaginação inflacionam o uso de comparativos, e o vento, percebido como um rumor nas profundezas de um navio perto do motor, dá à casa mastros e lanternas e uma esteira de espuma e tudo mais. Aliado a uma adjetivação acumulativa, o investimento recorrente na produção de efeitos linguísticos tende a operar, com frequência, a transfiguração imoderada e afetada daquilo que é descrito: o brilho da água assemelha-se à Via Láctea quando avança borbulhante e espumante a serpentear pela noite, e contemplá-la ameaça-lhe com o peso do universo em toda sua imensidão ou com o desaparecimento como uma partícula de carne humana num vácuo interminável, para nunca mais retornar.

Cavalos Roubados não extrai sua energia da produção do espanto nem do deslocamento, mas da identificação. Daí a aposta na descrição minuciosa de acontecimentos, contextos, ações e pensamentos. Per Petterson não propõe à linguagem nenhum problema além daquele que já - e somente - a coloca a serviço do desenvolvimento de uma narrativa verossímil e comovente, apostando no desempenho emocional de seu principal personagem.

Responsável por muitas das passagens mais significativas da trama, a figura de seu pai destaca-se dentre aquelas que Trond consegue reconstituir. Resto de tudo o que viveu e que, em grande parte, se foi - feito, portanto, da mesma matéria residual de que se vale a memória -, o narrador de Cavalos Roubados nos mostra que o presente não pode ser compreendido como ponto de ancoragem de uma realidade factual e auferível, senão como um estado atravessado e remodelado por tudo aquilo que é, continuamente, lembrado.

CARLOS DE BRITO E MELLO É MESTRE EM COMUNICAÇÃO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE O CADÁVER RI DOS SEUS DESPOJOS (SCRIPTUM) E DE A PASSAGEM TENSA DOS CORPOS (COMPANHIA DAS LETRAS)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.