Um tributo emocionado aos mestres americanos

Jessye Norman encanta com Ellington,Gershwin e outros

Crítica: Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 00h00

Três décadas de experiência como cantora lírica foram suficientes para colocar a norte-americana Jessye Norman no panteão das grandes divas da ópera, mas não para garantir uma nova carreira como intérprete popular. Assim, ela tem insistido no grande repertório americano - Ellington, Gershwin - para reforçar sua nova condição, prestando homenagem às grandes cantoras que marcaram a cena jazzística, entre elas Ella Fitzgerald, Lena Horne e Nina Simone, lembradas no recital American Masters, na última sexta, no Teatro Bradesco. De certa maneira, Jessye Norman voltou às raízes, acompanhada pelo ótimo pianista Mark Markham. No melhor momento do recital paulista, uma homenagem à cantora de spirituals Odetta, em que interpretou a tradicional Another Man Done Gone, Jessye Norman retomou o caminho de casa - ou melhor, da igreja batista de Augusta, Geórgia, onde a história da precoce cantora começou, aos 4 anos, cinco antes de ouvir sua primeira ópera.

Como Leontyne Price foi a primeira grande intérprete operística que ouviu, aos 9 anos, é justo que Jessye Norman também lembrasse dela ao incluir no programa canções da ópera Porgy and Bess. E pareceu, de fato, que ela tinha em mente a emocionante versão de My Man"s Gone Now gravada em 1952 por Price, ao cantar o tema de Gershwin, assim como a de Ella Fitzgerald quando baixou o registro para suavizar sua interpretação de Summertime.

Parece claro que não se pode exigir de Jessye Norman, aos 65 anos, a mesma voz e disposição dos anos 1980, quando enfrentava desafios como as canções de Richard Strauss e Schoenberg. Já nos anos 1990, aliás, ela trocou papeis de soprano por mezzosoprano, embarcando definitivamente em projetos de crossover com músicos de jazz na virada do século. Mas, se Aída, Carmen e Salomé ficaram para trás, hoje ela exercita seu talento dramático ao brincar com a irônica letra de Truman Capote para Sleeping Bee, do musical House of Flowers, de Harold Arlen. Esse foi um momento especial , em que ela encarnou a prostituta Ottilie com a abelha do título abafada entre as mãos.

Um recital que começou mal, com uma interpretação apenas razoável de Somewhere, de Bernstein - em que brigou com o microfone e quase desafinou - foi evoluindo até a apoteose da homenagem a Duke Ellington - três dos standards mais apreciados do compositor, entre eles Don"t Get Around Much Anymore - e um bis operístico com a Habanera de Carmen.

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