Um tributo ao rico universo de Villa-Lobos

Com CD Superstar, grupo Pau Brasil reafirma excelência

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO , O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2012 | 02h11

É impossível contar a história da música instrumental brasileira das últimas três décadas sem conceder lugar relevante ao quinteto Pau Brasil, criado pelo pianista e arranjador paulista Nelson Ayres no último ano da década de 70. Naquele momento, a música instrumental praticada no País concentrava-se na fórmula trio piano-baixo-bateria, em que se destacavam grupos como o Zimbo, o Tamba e o Sambalanço.

Ayres, que retornara em 1977 após estudar na famosa Berklee College de Boston, manteve uma big band tocando semanalmente no finado Opus 2004, onde experimentou o que lá aprendera e ensinou muitos músicos brasileiros; até teve o convencional trio, com Azael Rodrigues na bateria e Rodolfo Stroeter no baixo; ele logo virou quarteto, com o saxofonista Roberto Sion; e em 1982 adquiriu sua formatação ideal, com a chegada do violonista Paulo Belinatti.

Dali em diante, o grupo se impôs. Primeiro, pela qualidade de sua música; segundo, pelas diversidades que abraçou ao longo deste tempo. Ayres comandou a aventura nos anos 80, de tinturas ainda jazzísticas mais convencionais. Na década de 90, Ayres bandeou-se para a direção da Orquestra Jazz Sinfônica e foi substituído pelo pianista Lelo Nazário, período em que o Pau Brasil flertou com a vanguarda europeia e acabou por isso mesmo mais bem aceito internacionalmente. As pitadas de brasilidade deveram-se mais à incorporação da cantora e pesquisadora da música indígena amazônica Marlui Miranda. O retorno de Ayres ao comando do grupo em 2005 o fez caminhar em bases maduras o suficiente para finalmente praticar uma música que se cola ao seu nome como tatuagem na pele. O exemplo mais recente desta tendência é o CD Villa-Lobos Superstar, em que o quinteto se junta ao Ensemble SP de cordas e ao cantor Renato Braz para tributo original ao maior compositor brasileiro. Ayres e Belinatti dividem a autoria dos arranjos, num nível de refinamento admirável.

O CD, de certo modo, dá um fecho de ouro e deveria - embora não esteja - participar do belíssimo Pau-Brasil Caixote 1982-2012, com 8 CDs e um ensaio de Carlos Calado num livreto com cara e jeitão ECM. Lá estão, pela ordem: Pau Brasil (1982), Pindorama (1986), Cenas Brasileiras (1987), Lá Vem a Tribo (1989), Metrópolis Tropical (1991), Música Viva (1993), Babel (1995) e Pau Brasil 2005.

Ayres tinha 35 anos quando o grupo lançou seu primeiro CD, Pau Brasil, no qual seu piano contracena com o sax de Roberto Sion, o contrabaixo de Rodolfo Stroeter e a bateria de Azael Rodrigues. No repertório, o grupo já buscava instituir trabalhar sobre clássicos da música popular brasileira, começando a criar um baú de "standards" brazucas, emulando o que sempre fizeram os músicos de jazz mergulhando no "great american songbook" como matéria-prima para arranjos e improvisos. Só que eles perseguiam uma linguagem brasileira. Basta ouvir o ótimo arranjo de Ayres para Na Baixa do Sapateiro, ou Frevo do Pastochia e Jongo, ambos de Belinatti, para sacar para onde iriam aqueles músicos já então excelentes.

Em 30 anos, mais de 20 instrumentistas passaram por suas diversas formações. Além dos citados, o acordeonista Toninho Ferragutti, a cantora Marlui Miranda, o tecladista Cristóvão Bastos, e os bateristas Nenê, Bob Wyatt e José Eduardo Nazário. Em seu retorno 15 anos depois, Ayres regravou simbolicamente Jongo de Belinatti e Na Baixa do Sapateiro, do primeiro CD do grupo, de 23 anos antes. E reforçou o flerte com Villa-Lobos, registrando sua leitura pessoal da Ária da Cantilena e da Dança: Martelo, os dois movimentos que compõem a Bachianas Brasileiras n.º 5.

Três dos integrantes originais do quinteto permanecem: além de Ayres, Belinatti e Stroeter compõem a espinha dorsal, complementados pelo saxofonista/flautista Teco Cardoso, integrante do quinteto em diferentes etapas. O chamado sangue novo fica a cargo do baterista Ricardo Mosca.

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