Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

Um toque do seu Manoel

Entre afetos e desafetos, Poladian espreme há 50 anos sucesso de gente com talento. Mas avisa: ''Não faço milagre''

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2010 | 00h00

Ir bem na prova de economia política do Mackenzie era barbada. Em vez de estimativas e análises, o professor José Pinho Antunes se contentava com qualquer pupilo de boa vontade que escrevesse uma só frase, do início ao fim do teste: "Produzir é criar coisas ofélimas. Coisas ofélimas são coisas úteis. Produzir é criar coisas ofélimas. Coisas ofélimas são coisas úteis..." E assim o aluno deveria seguir, até a última linha. De todas as aulas que teve para se tornar advogado, foi esta que ficou na memória de Manoel Poladian. O direito, mesmo coroado com doutorado na França, não foi adiante. Poladian se tornou empresário de artistas, produtor de shows, fez amigos e inimigos, brindou sucessos e engoliu fracassos com vinho tinto e gols do Corinthians, mas não deixou a ideia de produzir coisas ofélimas em um meio no qual a noção de útil sempre foi uma questão de visão.

Ao sentir que um artista poderia ser mais rentável, Poladian acionava sua fórmula ofélima para "maximizar o sucesso" daquele produto, algo que pode valer como colocar sua turma para ralar e fazer shows, muitos shows. Gal Costa, Titãs, Elis Regina, Maria Bethânia, Roberto Carlos, Daniela Mercury, todos acordaram com os galos na época em que Poladian, acostumado a dormir quatro horas por noite, controlava suas agendas. Pelas contas do empresário, tal regime rendia resultados. O melhor deles pode ter sido o do grupo RPM que, por suas contas, chegou a faturar US$ 30 milhões em um ano. "Todos os artistas que trabalharam comigo saíram ganhando cinco vezes mais do que ganhavam antes", crava o empresário, para lembrar de uma outro pensamento que parece vir pronto: "Se o produto que o artista faz é bom e o artista é bom, faço ele ganhar muito bem. Se o produto é médio e o artista ruim, consigo aumentar seu faturamento em 50%. Mas se os dois são ruins, não faço milagre."

Mitos e verdades. O estilo Manoel Poladian de fazer música virar cifrões rendeu polêmicas. Ou, como ele prefere, "lendas". Poladian pegaria artistas a preço de banana para vender seus shows inflacionados. Poladian tiraria o couro de seus contratados. Poladian não investiria em seus artistas o quanto deveria investir. "Nada disso é verdade", rebate. "Mas deixo falarem para virar lenda." Suas contas hoje seguem cálculos "científicos". Sessenta por cento do que ganha com um artista é reaproveitado em mídia e produção do próprio artista. Sua mais recente investida chama-se Rosa de Saron, uma banda de música pop cristã que Poladian descobriu assistindo TV. "Vi aquilo e falei para minha mulher: "Esse cara (o cantor Guilherme de Sá) é o Paulo Ricardo melhorado." É o melhor cantor que já vi. Dá para encher estádio de futebol." Sua missão é fazer o público não cristão digerir o som do grupo, já que o rebanho no meio gospel é realidade que lota casas de show em São Paulo.

Aos 67 anos de idade, 50 de carreira, Poladian faz uma série de shows para festejar as datas redondas em uma casa que pouco abriu as portas para este tipo de evento nos últimos anos, o Anhembi. Já teve Ney Matogrosso, Gal Costa e, hoje, Rita Lee, que virá com o show ETC, um grande passeio pelos sucessos de sua carreira (Av. Olavo Fontoura, 1.209, 2226-0400). Rita, uma das poucas artistas grandes a permanecer com Poladian, foi "descoberta" pelo empresário em uma situação pouco confortável, lá pelas loucuras de 1978. "Elis Regina foi me chamar: "Vamos tirar a Rita Lee da cadeia, ela está presa". Acho que jogaram uns "bagulhos" na casa dela e a prenderam, ela estava grávida. Tirei ela de lá e estamos juntos até hoje." Poladian, ao seu estilo, fala de seu maior sucesso: Sting no Maracanã, 184 mil pessoas, 1985. E não dá palavras sobre seu maior fracasso. "Quando perco, fico intolerável."

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