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Um toque de Brasil nos acordes de Hollywood

A paulistana Vivian Aguiar-Buff começa a produzir trilhas de superproduções

João Fernando - O Estado de S.Paulo

09 Julho 2013 | 02h09

Em vez de ganhar um adesivo de estrela no boletim depois de uma sequência de notas dez, Vivian Aguiar-Buff recebeu um convite de emprego em Hollywood. A paulistana de 32 anos foi concluir os estudos de música na Berklee College of Music, em Boston, e acabou se tornando produtora de trilhas sonoras de superproduções, como G. I. Joe: Retaliação, estrelada por Bruce Willis, e é uma das responsáveis pelo que os espectadores ouvirão em Turbo, animação da Dreamworks - prevista para estrear no aqui no dia 19 de julho-, na qual ela terá seu nome nos créditos pela primeira vez na telona.

"Eu era bem nerd. Passava os fins de semana em casa estudando. Estava com 28 anos, gastando uma grana e quis fazer render", relembra. Hoje, ela dá expediente no Remote Control Productions, estúdio fundado pelo alemão Hans Zimmer, vencedor do Oscar pela música de O Rei Leão (1994) e de cerca de outros 70 prêmios. Lá, Vivian é o braço direito de Henry Jackman, compositor da trilha de produções como O Gato de Botas (2011) e Capitão América 2: O Retorno do Primeiro Vingador, em fase de pós-produção.

Por ter muitas divisões, o esquema de trabalho musical hollywoodiano faz Vivian misturar a criatividade com funções estritamente técnicas. "Meu trabalho é muito próximo como o de editor de música. Sou responsável pela parte de logística da produção da trilha, desde falar com o contratante dos músicos da orquestra até tratar com diretores e produtores. Sou a ligação entre estúdios e o Henry Jackman. E faço assistência técnica dos computadores dele", descreve.

Mesmo com obrigações na coordenação técnica, ela garante conseguir criar também. "Como tenho base de música eletrônica, faço o design de som. Consigo fazer coisas criativas. Nas gravações, fico lendo as partituras do compositor. Ele fica mudando a orquestração na hora, se não gosta de algo. Ele vai dando notas e vou marcando."

Antes de se dedicar à música, quando entrou para o conservatório Souza Lima, Vivian estudou cinema em São Paulo, mas não tinha tanto empenho quanto nos últimos tempos. "Levei na flauta", confessa. Na época, sem tantas preocupações com a vida acadêmica, começou a trabalhar com filmes por aqui. "Acabei aprendendo em campo, pois comecei com 19 anos", analisa. Em seguida, encaminhou-se para a produção de música eletrônica. "Eu era minha própria banda, viajava com o computador", contou ao Estado por telefone de Los Angeles, para onde se mudou em 2012.

Ser de outro país não fez a paulistana se sentir um peixe fora d'água no ambiente de trabalho. "Os norte-americanos têm uma ideia bacana dos brasileiros, admiram nossa música. Nunca me senti estrangeira aqui, pois 70% são estrangeiros. O Jackman é inglês, tem russo, coreano e outro brasileiro. Sempre fui bem recebida. Nunca senti falta de respeito nem trabalhei em dobro por ser de fora", defende ela, que, nos tempos de estudante, fundou uma associação para difundir a música do Brasil nos EUA.

A carga de trabalho é puxada. "Os prazos são curtos e tem o render (processo de salvar um arquivo de vídeo, que pode levar horas). Fico dias, durmo aqui, às vezes. Todos os sofás são 'dormíveis', têm travesseiro e cobertor. Também temos banheiro com chuveiro. Meu marido é que não fica muito feliz", entrega ela, que levou o companheiro, também brasileiro, na mudança para a costa oeste.

"Ele trabalha como advogado e estuda exatamente essa parte (dos direitos autorais de música) para me manter fora de perigo", explica Vivian, misturando português com expressões em inglês, consequência dos quase três anos longe do Brasil. Nas próximas semanas, enquanto os colegas de trabalho tiram férias de verão de lá, Vivian vai continuar batendo cartão. "Vou ficar no estúdio, fazendo manutenção dos computadores do Henry."

Ela diz estar se acostumando a viver na terra das estrelas do cinema mundial e se depara com elas na padaria. "As premières são aqui. Rola direto. Mas eu não vejo os muito famosos, vejo mais as semi-celebridades. Outro dia, passei pelo Simon Cowell", diz, citando um dos jurados de programas como American Idol e The X Factor.

Mesmo lidando com nomes conhecidos, ela revela se deslumbrar de vez em quando. Um dos serviços recentes foi a trilha de É o Fim, longa codirigido pelo ator Seth Rogen, protagonista de O Besouro Verde (2011) e integrante do elenco da série Arrested Development, exibida pelo Netflix. "Em uma das nossas reuniões, ele esqueceu os óculos escuros e eu fiquei de devolver. Aí, eu falei para as pessoas que trabalham comigo: 'Deixe eu colocar os óculos dele antes'. A gente fica tietando."

Até no meio do expediente Vivian tem momentos em que custa a acreditar que está inserida na indústria do cinema hollywoodiano. "Eu me surpreendo todos os dias. Fico andando pelos corredores, olhando a sala do Hans. Nunca imaginei estar aqui", conta. Ela garante que os chefes ilustres tratam todos da mesma maneira. "É todo mundo amigo, todos almoçam juntos. Cada compositor é a própria companhia, pois o Hans alugas as salas. É uma comunidade criativa. Se ele tem um projeto e não consegue fazer, passa para outro."

Por causa da distância, a paulistana acompanha as notícias do cinema nacional pela internet e pede DVDs a quem vai visita-la. Apesar da dedicação à função, ela cogita a possibilidade de voltar para casa um dia. "Seria um sonho. O cinema no Brasil está se desenvolvendo, a qualidade dos longas está melhor. Tenho muita vontade de voltar, mas tenho de me estabelecer aqui. Quero continuar a fazer filmes em Hollywood."

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