Um tenor brasileiro em Paris

O gaúcho Martin Muehle canta Tchaikovsky na Bastilha

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2012 | 03h10

A montagem da ópera A Dama de Espadas, de Pietr Tchaikovski, não chega a ser uma novidade na Ópera Bastilha, em Paris. Sua primeira exibição foi em 1991, sob direção musical de Myung-Whun Chung. Uma nova produção seria assinada por Vladimir Jurowski em 1999, 2001 e 2004. Agora ela volta a ser apresentada, desta vez sob a direção artística de Dmitri Jurowski. Para os brasileiros amantes de ópera, porém, a novidade maior do cartaz não é a sucessão entre os dois irmãos, mas a presença do tenor Martin Muehle no elenco - o primeiro cantor lírico do País a se apresentar na Bastilha.

A participação do brasileiro está longe de ser um acaso. Muehle e Nicolas Joel, atual diretor da Ópera Nacional de Paris, haviam trabalhado juntos quando da passagem do francês pelo Théâtre du Capitole, de Toulouse, ocasião em que o brasileiro participou de A Mulher Sem Sombra, de Richard Strauss, entre 2007 e 2008.

É verdade que seu papel em A Dama de Espadas é antagonista. Na montagem, ele interpreta Tchekalinski, um jovem aristocrata, amigo de Hermann, o protagonista encenado por Vladimir Galouzine. Mas sua participação e seu nome estão lá. "Tchekalisnki pode me dar novas possibilidades na Europa."

Logo nos primeiros ensaios, Jurowski lhe propôs estender a parceria. Como o diretor musical é também chefe da Ópera de Antuérpia e tem relações sólidas na Rússia, novos horizontes devem abrir-se para Muehle.

Essas possibilidades premiam uma carreira que nem sempre foi coberta de glórias. Filho de um amante da música clássica, Muehle começou a ter aulas de música no Colégio Farroupilha, em Porto Alegre, e fez aulas particulares de piano, flauta, teoria musical e violão, antes de chegar aos corais de canto da capital gaúcha. Apesar da paixão, quase se tornou jornalista. Abandonou a faculdade de Comunicação e decidiu dedicar sua vida à música depois de conhecer um barítono uruguaio que se tornou seu professor, em 1989. Então descobriu a ópera. "Um dia, eu estava assistindo ao Pavarotti e durante o espetáculo comecei a chorar e disse: 'É isso que eu quero ser na vida'", recorda-se.

O percurso, entretanto, não seria fácil. Chegou a começar a Faculdade de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas mudou-se para a Alemanha, acompanhando sua namorada de então. Recomeçou sua formação universitária na cidade de Lübeck, onde ficou quatro anos. "Tinha muita gana, mas o processo de aprendizagem era bem lento", conta. Insatisfeito, continuou seus estudos em Hamburgo e passou pelas aulas de Carlo Bergonzi, em Siena, em 1993 e 1994. Aos 23, 24 anos, estava formado, mas só se tornaria profissional aos 27, quando passou por suas primeiras audiências em agências alemãs. Em uma delas, voltou a viver em uma pequena cidade, Bremerhaven, onde progrediu em termos profissionais, mas o isolamento foi um duro teste em sua vida pessoal. "O teatro me permitia aprender o métier, mas a vida social na cidade era zero." Além disso, Muehle descobriu na ópera uma profissão como as outras, com trabalho duro, precariedade e pouco glamour.

Decepcionado, só reavivou o interesse ao vivenciar uma nova experiência profissional, como professor de aulas particulares em Hamburgo. "Foi aí que percebi que tinha uma paixão que ainda não conhecia."

O resultado da fase de reciclagem foram novos papéis em Hamburgo, Leipzig, Viena, Lübeck e São Paulo, que lhe permitiram retomar a autoestima e aproveitar as oportunidades que surgiam com cada vez mais frequência por volta de 2001 e 2002. Em 2004, viria seu primeiro papel como protagonista em A Flauta Mágica, no Municipal do Rio. Na mesma época, em Viena, fez papéis nas tradicionais operetas do Teatro de Baden, crescendo em sua presença cênica graças ao aprendizado com o tenor búlgaro Ilko Natchev. "Aos poucos, tive a sensação de estar crescendo, embora não estivesse totalmente maduro."

A "maturidade" começou a aflorar em 2007, em Toulouse, onde conheceu Nicolas Joel. "Aí senti que tinha encontrado o meu caminho." O retorno ao Brasil e o casamento com soprano Claudia Riccitelli trouxeram satisfação à vida pessoal e novo impulso na carreira. No mesmo ano, foi protagonista no Palácio das Artes, de Belo Horizonte, e no Municipal de São Paulo.

Agora, Muehle se lança à luta contra a perda da tradição brasileira na ópera. "O Brasil foi uma rota lírica para cantores europeus que passavam pelo Rio e São Paulo em direção à Argentina. Mas faltou continuidade no ensino", lamenta. "Hoje, temos vozes maravilhosas, mas muitas se perdem no início, por repertórios errados, com falta de visão, de direcionamento. O resultado é que a tradição está se perdendo e temos poucos cantores em carreira internacional."

Abertas as portas de Paris, Muehle busca agora o reconhecimento internacional, o mesmo desafio de músicos como o barítono Paulo Szot, em Nova York, e da soprano Eliane Coelho, em Viena. Na rota, estão espetáculos na Argentina e Croácia e novas audições de peso na Alemanha, marcadas para 2012.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.