Um teatro de luzes e sombras

Ayckbourn fala sobre Isso É o Que Ela Pensa, peça que estreia no Brasil

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2012 | 03h08

O dramaturgo de maior sucesso no mundo. É assim, sem meias palavras, que a rede de televisão BBC define Alan Ayckbourn. Além de o mais encenado autor vivo da atualidade, o britânico de 72 anos talvez seja também o mais premiado. Já foi laureado com todas as grandes honrarias do teatro: o Tony, o Olivier e o Molière.

"Tento não deixar que essa repercussão afete o meu trabalho", disse o autor em entrevista exclusiva ao Estado. "Além disso, não há como provar que eu seja mesmo o dramaturgo mais encenado. Só sei que, se isso for verdade, eu deveria estar recebendo mais royalties", graceja.

Os direitos autorais podem ainda não ser do tamanho que sir Ayckbourn gostaria. Seja como for, sua obra já foi traduzida para cerca de 35 idiomas. Ganhou os palcos de todos os continentes. Conquistou cineastas como Alain Resnais, que se baseou em um argumento seu para rodar o longa Medos Privados em Lugares Públicos, vencedor do Leão de Prata de Veneza, em 2007.

Gradativamente, sua ficção começa também a ser descoberta no Brasil. Já mereceu algumas montagens por aqui e volta à baila hoje com a estreia de Isso É o Que Ela Pensa - espetáculo protagonizado por Denise Weinberg.

Uma das mais aclamadas obras de Ayckbourn, a peça de 1985 sinalizou um ponto de inflexão em sua carreira. Marca o momento em que ele deixa as comédias de costumes e adentra em um território de temas e formas mais adensados. Relativiza-se o realismo. Abre-se espaço para certa dose de absurdo. Suas personagens femininas ganham matizes e se tornam mais e mais complexas. A ponto de as mulheres o interpelarem: "Como você sabe sobre o que nós falamos?"

Em Isso É o Que Ela Pensa desvendam-se os pensamentos mais secretos de Susan, uma dona de casa de meia-idade. Afogada nos próprios fracassos, ela forja para si uma família imaginária. Tão perfeita como ela gostaria que a vida tivesse lhe dado.

O próprio Ayckbourn reconhece semelhanças entre a problemática protagonista e sua mãe - escritora que enfrentou algumas crises nervosas quando ele era criança. Famílias disfuncionais, aliás, atravessam sua criação como um de seus motes preferidos.

Mas não importa exatamente qual é a temática sobre a qual o dramaturgo se debruce. Existe um traço que permanece: o humor. Alan Ayckbourn não faz dramas puros. Tampouco constrói comédias stricto sensu. É quase sempre agridoce o olhar que lança para o mundo. "Uma peça toda clara ou toda escura nunca produz sombras", ele observa. "E, na minha opinião, é nas sombras onde se encontram as verdades mais interessantes sobre nós."

O senhor é constantemente apontado como um de nossos maiores dramaturgos, o

mais encenado autor vivo do mundo. Qual o impacto dessa popularidade na sua criação?

Tento evitar que isso afete a minha maneira de escrever. Eu escrevo inicialmente para a plateia de Scarborough (pequena cidade do Reino Unido onde o autor vive), como aliás eu sempre fiz desde que comecei. Ao longo dos anos, é claro que eu vi crescerem as expectativas em torno de uma nova obra minha. E eu faço o máximo para não desapontar. Tentando ser suficientemente diferente para surpreender. Buscando manter algo de familiar para não desapontar. Acho que essa é a única pressão que sinto.

O senhor começou a sua carreira como ator. E decidiu começar a escrever justamente porque estava em busca de melhores papéis. Como esse passado como intérprete repercutiu em seu estilo de criar?

A experiência como ator certamente me ajudou como escritor. Escrever uma peça é, afinal, fazer algo que vai ser posto em prática. Um dramaturgo é como um compositor. Em seu ofício, é útil que ele tenha domínio de algumas habilidades práticas - mesmo que em nível mais modesto. Ao longo da minha carreira, passei por diferentes funções. Além de ator, fui iluminador, cenógrafo, operei o som, além de, claro, também dirigir. Todas essas são informações para o escritor.

Além de muito encenado, o senhor é um autor extremamente prolífico, com 76 peças lançadas. Por que escrever tanto?

No fundo, acho que eu simplesmente gosto de escrever. É divertido!

Aparentemente, suas peças são capazes de cativar o público em contextos bastante diferentes: seja no circuito alternativo seja no cenário comercial, fazendo sucesso na Broadway ou no West End. Qual, o senhor supõe, seja a explicação para isso? Quando o teatro se torna um grande negócio, capaz de movimentar milhões, quais podem ser as possibilidades para a arte, para a livre criação?

Eu tento simplesmente não pensar nessas grandes plateias quando estou escrevendo. Mantendo a operação em um nível pequeno, é possível manter o controle. Geralmente, eu nunca crio nada que exija ou demande a participação dos outros. Do contrário, eles também se sentirão no direito de esperar algum controle artístico.

Seu traço característico é a maneira como o senhor combina drama e comédia em suas criações. Uma obra de arte e reflexão pode ser, ao mesmo tempo, uma forma de entretenimento?

Creio que o bom teatro sempre pode ser os dois. Uma peça toda clara ou toda escura nunca produz sombras. E, na minha opinião, é nas sombras onde se encontram as verdades mais interessantes sobre nós.

Isso É o Que Ela Pensa mostra uma mulher diante de um impasse: infeliz com a realidade, ela fantasia. Mas, aos poucos, se mostra igualmente incapaz de sustentar essa felicidade inventada. Como o senhor vê essa personagem e seus conflitos?

A personagem de Susan é, provavelmente, um caso extremo. É claro que muitos de nós sonhamos. É da nossa natureza e isso faz com que nos reconheçamos nela. Sonhos são, geralmente, saudáveis e inofensivos. Eles nos dão um respiro, uma folga da realidade. O perigo acontece no momento em que crescemos e passamos a preferir o sonho para escapar de uma realidade que nos parece insuportável. Susan começa a confundir realidade e fantasia. E é aí que a loucura reside.

É verdade que, como diretor, o senhor prefere sempre utilizar o palco em formato de arena, no lugar do tradicional do formato do palco italiano? Por quê?

Sim, certamente prefiro o palco em formaTO de arena para o meu trabalho. Para além de qualquer outra coisa, essa forma permite que o público compartilhe o mesmo espaço que os atores. Essa é a essência do teatro que eu faço.

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