Um sutil balanço ecoa entre geleiras nórdicas

O sueco José González lança novo trabalho à frente do trio Junip - a influência brasileira é, como sempre, palpável

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2013 | 02h08

A proximidade do sueco José González com a música brasileira pode não ser consciente, mas é constante. Um violão de nylon dá ao seu trio Junip, que acaba de lançar o segundo disco, um verniz bossa nova. Uma voz mansa ecoa intimismo. Um assobio esporádico lembra a praia. Tudo é recombinado, no entanto, em um universo folk, com sintetizadores, a ocasional batida kraut, e um sossego nórdico semelhante ao dos noruegueses do Kings of Convenience.

José, no entanto, é menos conveniente. Seduz através da hipnose (sua praia é mais para fiorde), e como um Jorge Ben das geleiras, nos momentos de glória, equilibra percussão violonística com melodias tranquilas. Vide Rope and Summit, do primeiro disco, Fields, de 2010, em que um balanço meditativo acompanha a melodia esparsa, enquanto a banda toca rock and roll recatado por trás de sua voz. Esta combinação marcou os pontos mais instantaneamente notáveis do primeiro disco, mas foram os momentos de introspecção, em que José conseguiu traduzir para o grupo o intimismo pelo qual é conhecido em carreira solo, que deram força à obra do Junip.

Esta receita também faz do novo álbum uma experiência singular. José lidera a banda com seu vocal controlado, que não arrisca notas altas e transita em torno de um rente punhado de sons. Em faixas como Head First e After All Is Said And Done, a combinação extrai uma notável placidez e abrangência através de detalhes no arranjo. A função destas é dar dinâmica aos sutis picos de energia de Junip, tal como o de So Clear, um dos bons momentos rítmicos, com uma batida funkeada e um sintetizador errante a adornar as letras de González.

"Não imaginávamos que chegaríamos aqui. Agora que tudo se esvai, tudo é tão claro", canta ainda José no psicodélico refrão, repetido como um mantra.

É o momento mais agressivo do disco, cuja gentileza sagaz ao reimaginar elementos de rock and roll se destaca. As dinâmicas ficam por conta da banda, formada no fim dos anos 1990 por José, o baterista Elias Araya e o especialista em sintetizadores Tobias Winterkorn. José entende que a função de seus vocais é dar um ponto central às faixas e deixar a banda inflar os arranjos em torno de suas letras. Isto acontece de maneira calculada, para que o efeito seja sempre apaziguador, criando uma experiência pouco agressiva.

Sussurros. Se há algum erro nesse cálculo, é de que os sussurros da banda possam fazer o disco passar despercebido. Junip funciona muito bem como experiência auditiva, ouvido em um momento de reflexão, sem distrações. Tem suavidade e categoria suficientes para tirar uma mente conturbada do vendaval diário. Mas não tem uma canção que se destaque como Rope and Summit fez em 2010, e por isso corre o risco de passar batido pelo hype.

JUNIP

JUNIP

Mute Records US$ 9,50 (iTunes)

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