UM SUBLIME YAMADA

Cineasta japonês entusiasma público com o simples e delicado Tokyo Family

LUIZ CARLOS MERTEN, ESPECIAL PARA O ESTADO / BERLIM, O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2013 | 02h10

Yamada-san, Yamada sensei. Aos 82 anos, o japonês Yoji Yamada virou um dos grandes diretores com cadeira cativa na Berlinale. Todos os seus filmes dos últimos dez anos têm passado aqui. Havia um público numeroso para assistir no Friedrichstadt-Palast, a segunda maior sala do festival, na quarta à noite, a Tokyo Family. O novo filme de Yamada é dedicado a Yasujiro Ozu. Trata-se de um remake ou atualização do filme que o próprio Ozu considerava sua obra-prima, Tokyo Monogatari (Era Uma Vez em Tóquio). Pode ser que a plateia do Friedrichstadt seja a mais calorosa de Berlim. Afinal, já havia aplaudido intensamente Reaching for the Moon, de Bruno Barreto. Anteontem, o público quase veio abaixo aplaudindo Yamada. Pena ele não estar presente - roda novo filme. Mas terá imenso prazer de voltar no próximo ano para reencontrar os amigos.

Yamada foi assistente de Ozu, justamente em Era Uma Vez em Tóquio. De uma maneira talvez mais popular que o mestre, ele assimilou várias de suas lições relativas à família e austeridade narrativa. Yamada tornou-se conhecido pela serie É Triste Ser Homem, com mais de 40 episódios. São filmes feitos de observações humanas e sociais, como Tokyo Family. Como no clássico de Ozu, um casal de velhos visita os filhos em Tóquio. Na cidade grande, os filhos, imersos nas próprias vidas, não têm tempo para eles nem são o sucesso que os pais imaginavam. Só o caçula, o que o pai considerava o fracasso da família, vai se revelar uma pessoa afetiva e feliz no que faz. A morte inesperada de um dos velhos fará com que todos passem por uma rude prova.

Como se filma uma história dessas, aparentemente sem novidades? Yamada aposta na honestidade dos sentimentos e na caracterização dos personagens. Os atores são maravilhosos e a empatia entre a mãe e a namorada do filho mais jovem rende um momento de delicadeza infinita. O que um espectador, cinéfilo, pode desejar após assistir a uma joia dessas? A um filme tão simples e tão rico? A Berlinale deu ao seu público o melhor presente que poderia esperar e, em Berlim Classics, exibiu a versão restaurada de Era Uma Vez em Tóquio.

Toda a obra de Ozu está sendo transferida para o digital e remasterizada. A cópia de Era Uma Vez em Tóquio está esplendorosa. Há poucas diferenças de narração entre os dois, mas, por mais que se goste da versão de Yamada, de Ozu é superior. Em seus filmes, ele retratou as mudanças de comportamento na sociedade japonesa do pós-guerra, em especial as mudanças na família. Com Ozu, o menor gesto ganha significado e a banalidade do cotidiano ganha status de tragédia, que ele filmava com economia, do ponto de vista da câmera ligeiramente baixa (que Yamada reproduz), para evitar que as emoções ficassem muito carregadas.

Assim como Era Uma Vez em Tóquio, mas neste caso havia a circunstância de haver nova versão do filme, outras obras destacadas têm sido exibidas em Berlim Classics. Cabaret, de Bob Fosse; Disque M para Matar, de Alfred Hitchcock; Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan, O Estudante de Praga, de Paul Wegener. Cada cópia melhor que a outra e momentos de antologia, como Grace Kelly com a tesoura (em Hitchcock) ou Marlon Brando levando aquela surra (em Kazan), nunca pareceram mais impressionantes.

Paralelamente aos clássicos restaurados, a retrospectiva privilegiou o Weimar Touch, por meio dos artistas, fugitivos do nazismo, que foram para Hollywood e produziram obras-primas da tendência conhecida como filme noir. Robert Siodmak, Andre De Toth, Jacques Tourneur. O clássico Casablanca, de Michael Curtiz, com aquele claro-escuro. A retrospectiva deste ano está sendo a glória, sem trocadilho com a heroína do filme chileno de Sebastian Lelio. E Claude Lanzmann recebeu prêmio especial pela carreira como documentarista.

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