Um sopro criativo Lygia

Com bom humor e elegância no estilo, escritora faz mudanças na própria obra

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h12

O saxofone ocupa um lugar privilegiado na obra da escritora Lygia Fagundes Telles. Um de seus contos preferidos (e também um dos melhores) intitula-se justamente O Moço do Saxofone e revela vestígios melancólicos ao narrar o destino do rapaz que compensa a traição da mulher tocando maravilhosamente bem aquele instrumento. Pois, nem mesmo esse texto, considerado primoroso por críticos diversos, escapou do crivo de sua autora - desde que a Companhia das Letras começou a reeditar seus livros, em 2009, Lygia decidiu reler todos e promover alterações que os tornassem ainda mais perfeitos. Recentemente, por exemplo, ela pôs um ponto final na reescrita de Um Coração Ardente, conto que vai abrir seu próximo lançamento. E o trabalho foi cirúrgico (compare abaixo).

"Eu me sinto muito à vontade para mexer, não acredito que os textos devam continuar como no original", conta ela, que recebe a reportagem do Estado em seu belo apartamento, nos Jardins. Ali, cercada pelas boas lembranças - fotos que ocupam a sala comprovam momentos de felicidade -, ela trabalha à mão, corrigindo frases, alternando orações, eliminando vírgulas. Uma prosa limpa mas poética é seu grande objetivo. Grande dama da literatura brasileira, Lygia é, como bem observa o jornalista José Castello no posfácio de Seminário dos Ratos, uma escritora que se dedica aos temas universais: a loucura, o amor, a paixão, o medo, a morte.

E a vida cotidiana é sua grande fonte de inspiração. Ainda que renomada, Lygia não se cansa de aprender. E, se isso vem acompanhado de boas gargalhadas, melhor ainda. Ela se recorda de uma curiosa alteração que promoveu em O Moço do Saxofone, que figura no livro Antes do Baile Verde: quando acompanhava, comovida, uma leitura do texto realizada pelo ator Guilherme Lemos, ela, que conhece todas as esquinas do conto, percebeu uma frase alterada. "Ao invés de dizer 'fiquei broxa na hora', como está no original, Guilherme falou 'broxei na hora'", conta Lygia, sem conter uma gargalhada. "Chateada, comentei com um colega da Academia Paulista de Letras, que me alertou na hora: 'homens não ficam broxa - apenas broxam'. Eu nunca tinha notado esse detalhe, afinal, sou mulher! Agora já atualizei o texto."

O bom humor é uma das marcas da personalidade da escritora, que conhece o poder da ironia. Embora não goste de revelar a idade (o que será respeitado aqui), diverte-se dizendo ser do "tempo da pedra lascada". Nas reuniões semanais que faz questão de frequentar na Academia Paulista, Lygia não se furta de prazeres proibidos como um cálice de vinho e um cigarrinho. Mas habitualmente prefere manter a imagem. "Certa noite, em uma festa da Companhia das Letras, escondi o cigarro quando o doutor Drauzio Varella se aproximou. Ficaria envergonhada se ele me flagrasse."

Mesmo com os movimentos limitados depois de sofrer uma queda no banheiro há alguns meses, quando fraturou a bacia, Lygia não gosta de viver como uma ermitã. Ainda que agora selecione mais os convites, ela se vale do apoio de uma bengala para os passeios. Quando isso acontece, utiliza táxis, nos quais prefere viajar no banco da frente. "São mais duros e me incomodam menos", justifica ela, que adora puxar conversa com os motoristas. "Com um, aprendi que não devo contar que torço para o São Paulo, pois ele soube de dois passageiros que acabaram no rio Tietê tão logo confessaram isso. Que exagero."

Ela também frequenta as reuniões do Conselho da Fundação Padre Anchieta, entidade mantenedora da TV Cultura. Membro vitalício, Lygia preocupa-se com a emissora. "Tenho medo que fique comercial demais", conta. "Não podemos ficar, por exemplo, sem programas com música clássica, pois são educativos." A autora confessa ainda ser fiel espectadora do Inglês com Música, atração que ensina o idioma de Shakespeare por meio de canções conhecidas. "No meu tempo, estudava-se francês; assim, tento aprender um pouco a falar em inglês", conta ela, sem medo de cantarolar pela casa.

Enfrentar desafios, na verdade, tornou-se sua marca. Lygia lembra-se com ternura do temor da mãe, Maria do Rosário, ao descobrir, nos anos 1940, que a filha também se dedicaria às letras. "Ela balançava a cabeça e dizia: 'você já estuda em uma faculdade apenas de homens (a de Direito do Largo São Francisco) e agora quer uma profissão masculina: assim nunca vai se casar...'", diverte-se. "Mal sabia ela que eu me casaria duas vezes."

Com o segundo marido, o crítico e pesquisador Paulo Emílio Sales Gomes, ela viveu bons momentos naquele apartamento dos Jardins. Ela gosta de relembrar, ao som de um saxofone - seu aparelho de CD não se cansa de reproduzir a música de Roberto Sion. Ali, a identificação é plena, pois, se no saxofone é o sopro do músico que determina volume, intensidade, cor e qualidade do timbre, é com a caneta que Lygia reconstrói e engrandece sua obra.

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