Um solo de trompete e o tempo que passou

Montagem de Side Man mostra o declínio da fase de ouro do jazz

Crítica: Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2010 | 00h00

  Cena coletiva. O diretor Zé Henrique de Paula criou sequências inspiradas em pinturas de Edward Hooper e Norman Rockwell  

 

O trompetista Bix Beiderbecke foi o primeiro grande músico branco do jazz. Filho de uma abastada família alemã matou-se de beber aos 28 anos (1903-31).Sua interpretação de Singin the Blues é uma pequena maravilha melancólica. O ímpeto autodestrutivo parece seguir o instrumento, de Charlie Parker a Chet Baker, vítimas da heroína. Miles Davis safou-se a tempo. Já Louis Armstrong (1901- 1971) levou uma vida regrada, e tornou-se a lenda sorridente e bonachona que conhecemos. Todos geniais. Esses artistas viveram um tempo que parece irreal, e foi quase ontem.

Side Man conta um pouco dessas vidas e da época das grandes orquestras de jazz e dança, algo que não sobreviveu à 2.ª Guerra, aos novos costumes e à voracidade novidadeira da indústria de entretenimentos. A peça não é necessariamente para amantes de jazz. Diz mais aos apreciadores do teatro realista norte-americano, com seus enredos psicológicos. A questão social ecoa em surdina permeando dramas familiares: pai boêmio e ausente, filho sensível e deslocado, mãe depressiva e bêbada. Em uma escrita desafinada resultaria em teatro menor mas o autor, Warren Leight, homenageia Tennessee Williams ao refazer de certa maneira sua obra À Margem da Vida (The Glass Menagerie).

No original, Side Man provavelmente conta mais do período em que as chamadas Big Bands eram um trupe numerosa. Só alguns exemplos: o lendário Benny Goodman entrava em cena com 14 músicos. Dois outros monstros sagrados iam além. Duke Ellington tocava com 15 e Count Basie com 18. No Brasil não se ficava por menos com Severino Araújo e sua Orquestra Tabajara, Luis de Arruda Pais e os conjuntos de Walter Wanderley e onipresente Waldir Calmon, que dominou salões e bailinhos com sua série de discos Feito para Dançar. Parece a pré-história mas são fatos entre os anos 40 e 60 (a Tabajara resiste).

Anjo torto. O protagonista de Side Man (pena manterem o título, expressão idiomática, pois aqui não diz nada) é o trompetista incapaz de pensar em algo além do instrumento e das noitadas com os amigos. Nem é mau sujeito, apenas um anjo torto e o pop-rock acabou com sua profissão. Papel que Otávio Martins constrói com sutileza emocional e precisa composição de gestos. Ao seu lado, no extremo oposto, Sandra Corveloni impõe consistência interior ao passionalismo da mulher que perdeu os sonhos ? sonhos que ainda acalentam a garçonete que Gabriela Durlo faz com discrição. O filho observa a derrocada dos pais com sentimento ambíguo de rejeição e piedade. Quer bater a porta e dar o fora. É difícil. Todos envelhecem, os empregos somem, mas os artistas fingem que voltarão aos dias gloriosos do trompetista Woody Herman, que morreu em 1987. Warren Leight delineia carinhosamente os tipos humanos, sabe captar a tristeza um pouco abaixo da pose e do choro. Não existe mensagem, só o retrato desbotado a oferecer.

Há referências específicas ao contexto norte-americano (como as expressões em iídiche, a menção ao General MacArthur) que se diluem na versão brasileira. Resta, então, a partitura para um espetáculo sóbrio sobre gente embriagada e belos solos de interpretação. O diretor José Henrique de Paula criou sequências inspiradas na pintura de Edward Hooper e Norman Rockwell. Um clima de ruídos externos para vazios íntimos. Homens e mulheres na fronteira entre o real e a fantasia, o que proporciona desempenhos caricatos, pungentes e sempre intensos de Eric Lenate, Luciano Schwab e Daniel Costa.

Fraquezas. Narrador e partícipe desse crepúsculo existencial, o filho é desempenhado por Alexandre Slaviero, substituído ocasionalmente, com brilho, por Marco Aurélio Campos (a sessão vista pelo crítico). A encenação é, assim, a rememoração da força de uma música extraordinária e a aceitação das fraquezas de seus criadores. O historiador Eric Hobsbawm ? um curioso marxista apaixonado pelo gênero ? anotou que a essência do jazz é não ser padronizado. Não se ajusta à indústria moderna porque é "o símbolo do movimento que traz a liberdade pessoal, um símbolo do fluxo a vida e, portanto do destino". Side Man procura dizer o mesmo por outras palavras.

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