Um sociopata e meios homens

Faltava pouco para a 1 da manhã, quando o comediante Craig Ferguson encarou a câmera com o sotaque bem mais carregado do que o de seu conterrâneo escocês Sean Connery. Ferguson é um ex-alcoólatra conhecido por ter abusado tanto de si mesmo que acordou um dia disposto a pular da Torre de Londres. Deu um salto mais alto e aterrissou numa clínica de dependentes químicos, há quase 20 anos.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2011 | 00h00

O comediante hoje é empregado de David Letterman e comanda um talk show diário, logo depois do programa do patrão. Ele falava devagar, sem o brilho maroto nos olhos que costuma preparar no desfecho de uma piada. No século 18, em Londres, havia esse asilo chamado Bedlam, lembrou Ferguson. Bedlam, ou Santa Maria de Belém, foi de fato um hospício desde o século 13 e originou a palavra bedlam, que quer dizer caos, loucura.

"E as pessoas pagavam 1 penny para espiar por um buraco os doentes mentais nas celas e caíam na gargalhada", Ferguson continuou. Ficou claro que não havia piada a caminho e o tema de seu monólogo seria o trem desgovernado que atende pelo nome de Charlie Sheen.

Não assisto ao ator mais bem pago da TV americana nem perco meu tempo com Two and a Half Men (Dois Homens e Meio), a sitcom que trouxe fortuna ao filho do estimado Martin Sheen, onde Charlie vive ele mesmo - um mulherengo bebum. Prefiro meu humor servido com mais inteligência e fora do vestiário da misoginia.

Sites de notícias e programas de TV têm pedido ao público para votar em quem é mais louco - Muamar Kadafi ou Charlie Sheen. Diante da brincalhona associação do genocida líbio ao candidato a homicida em Beverly Hills, será o caso de se perguntar o que isso revela, não sobre os lunáticos em questão, mas sobre a cumplicidade geral com esta forma de espetáculo que rendeu um recorde no Twitter? Charlie Sheen reuniu um rebanho de 1 milhão de seguidores pelo Twitter em menos de dois dias. É bom deixar claro que se tratou de uma estreia orquestrada por uma companhia que usa celebridades para endossar produtos na mídia social.

Apesar de ganhar a quantia astronômica de US$ 1.2 milhão por episódio de Two and a Half Man, o ator está no momento desempregado, com o cancelamento da série. O público brasileiro tem a sorte de não ter sido submetido, na semana que passou, à onipresença de Charlie Sheen na TV, no rádio e on-line. Seu evidente surto psicótico - "estou sob o efeito de uma droga, Charlie Sheen" - foi recebido como um maná pela rede ABC, que registrou a audiência mais alta em dois anos. A CNN, que há muito desistiu de se dedicar exclusivamente ao jornalismo, concedeu ao ator uma hora de horário nobre ao vivo. O apresentador Piers Morgan mal tomou conhecimento do elefante no estúdio, perguntando de passagem se Sheen já havia batido numa mulher. E se deu por satisfeito com a resposta: "Elas devem ser acariciadas."

Vejamos: em 1990, a atriz Kelly Preston, hoje casada com John Travolta, levou um tiro "acidental" de seu então noivo Charlie Sheen. Em 2006, sua segunda mulher, Denise Richards, obteve do juiz uma ordem de proteção contra o ator, que a havia empurrado escada abaixo. No Natal de 2009, sua terceira mulher, Brooke Mueller, conseguiu chamar a polícia de Aspen, depois que Sheen encostou a lâmina de uma faca no seu pescoço, que apertava com a outra mão. Em outubro de 2010, uma atriz pornô, contratada como companhia, também conseguiu discar 911 (emergência) de dentro de um banheiro do Hotel Plaza, onde se escondeu, enquanto o ator quebrava os móveis, abastecido por sua dieta habitual de cocaína. Na terça-feira passada, um juiz mandou retirar da casa de Sheen os gêmeos de 2 anos que ele tem com Brooke Mueller, depois que o ator ameaçou decapitar a ex-mulher e enviar sua cabeça para a ex-sogra. A remoção dos gêmeos foi gravada e exibida pelo ator, que bradava: "A derrota não é uma opção!"

Um pândego, esse Charlie Sheen. Mas, como bem lembrou David Carr, no New York Times, não foram esses incidentes violentos ou inúmeros outros, envolvendo vítimas menos célebres, que fizeram duas grandes corporações, a Time Warner e a CBS, respectivamente produtora e rede exibidora, cancelar as gravações de Two and a Half Man.

Charlie Sheen insultou no ar o criador da série, Chuck Lorre, também responsável por várias outras galinhas de ouro, séries de comédia com audiência alta. E ainda chamou Chuck de "Chaim", colocando uma cereja de antissemitismo no bolo de insultos desconexos. "Diante da totalidade das declarações de Charlie Sheen", dizia a declaração à imprensa, as corporações não viram escolha senão interromper a série que pode gerar centenas de milhões de dólares em reprises. Dar tiro ou bater em mulher, pode. Já falar mal do patrão...

O comediante Craig Ferguson, no monólogo sobre o hospício de Bedlam, expressou seu desconforto em usar Charlie Sheen como material barato de comédia. É uma atitude solitária. Jornalistas e apresentadores de TV americanos se ofereceram para tomar o seu lugar e exibir a doença mental como espetáculo. Como atentos profissionais de mídia, alguns admitiram que vão deixar pronto outro segmento. O obituário de Charlie Sheen.

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