Um só maestro, em três tempos

CLÁSSICO

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

Os cabelos brancos não deram a Daniel Barenboim aura de unanimidade, status acima do bem e do mal. Há mesmo quem diga que, na profusão de apresentações a que se dedica, suas leituras podem às vezes pecar pela superficialidade ou ainda seguir visões extremamente pessoais, que dizem mais sobre ele do que sobre a obra em questão. Ainda assim, como maestro, pianista, ensaísta, escritor, homem político, Daniel Barenboim é um músico incontornável de nosso tempo. E tem na carreira momentos marcantes, como os registrados em três discos reeditados agora pela Warner na coleção Maestro, em edição nacional.

No primeiro deles, interpreta o Concerto Duplo, para violino e violoncelo, de Brahms, e o Concerto para Violino, de Mendelssohn. Recentemente, um celista reescreveu o Duplo apenas para orquestra e violoncelo. Se evoca a fantasia do que poderia ter sido uma peça do gênero assinada por Brahms, que escrevia bem para o instrumento, o resultado é, no final das contas desajeitado. Isso porque o sentido da obra de Brahms reside justamente no duelo entre violino e violoncelo, aqui representados por Itzhak Perlman e Yo-Yo Ma. A experiência mostra que nem sempre unir figuras estelares resulta em fazer musical harmônico - e no caso de Perlman e Ma há diferenças marcantes de estilo, com o celista sempre em busca de uma sonoridade sólida, quase épica, e o violinista chegado a mudanças bruscas e tensas de andamento (como fica ainda mais claro no concerto de Mendelssohn). Ainda assim, a diferença aqui funciona e o resultado é empolgante, até porque Barenboim leva a orquestra a uma leitura que dá liberdade e espaço aos solistas.

Os outros dois álbuns nos levam a um mundo diferente, em que as obras se relacionam com episódios literários e evocam a possibilidade descritiva da música. No primeiro, o tema é a Divina Comédia. À frente da Filarmônica de Berlim, Barenboim interpreta a Sinfonia Dante e a Sonata Dante, de Liszt. No segundo, dois poemas sinfônicos de Strauss - Till Eulenspiegel e Uma Vida de Herói, com a Sinfônica de Chicago. Impressiona a liberdade de (re)criação do maestro nas obras sinfônicas - e do pianista na sonata, onde as escolhas de ênfase e de andamento são extremamente pessoais. Trabalhando com orquestras de sonoridade diferentes, Barenboim carrega em ambos os discos uma mesma marca, atenta a dinâmicas e aos coloridos orquestrais. Suas leituras sugerem uma coerência pessoal que não subjuga a música mas, pelo contrário, dá a ela frescor.

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STRAUSS: FIVE GREAT TONE POEMS Artista: Haitink/Jochum. Gravadora: Phillips Preço: R$ 50 (importado)

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