"Um só Coração" é mais acadêmica que moderna

Não deixa de ser irônico que uma minissérie (embora lateralmente) ligada ao modernismo ostente um ar acadêmico até a medula. O primeiro capítulo de Um só Coração, apresentado na terça-feira ? cuja audiência média da prévia de São Paulo foi de 35 pontos e participação de audiência foi de 54% ?, seguiu a tradição do gênero. Esticado em sua duração, cumpriu a tarefa de apresentar os diversos núcleos de enredo paralelos para que o espectador vá se acostumando com a história e com o grande número de personagens.Claro, a trama gira em torno da aristocrata Yolanda Penteado (Ana Paula Arósio) que se apaixona pelo rapaz pobre, de idéias anarquistas, Martin (Érik Marmo), mas há uma multidão cercando esse par romântico central. De personagens fictícios a verdadeiros, como Santos Dumont (Cássio Scapin) e Assis Chateaubriand (Antônio Calloni). Aliás, o pai da aviação corteja Yolanda e se revela um verdadeiro dom-juan, o que não anda muito de acordo com a biografia conhecida. Mas, enfim, sempre se podem tomar liberdades com a História e manipular perfis em função de necessidades dramatúrgicas.A idéia que está no papel é compor um painel da sociedade paulistana do início dos anos 20, neste mês em que se comemoram os 450 anos da cidade. E, como se trata de painel, torna-se obrigatório englobar os diversos segmentos dessa sociedade nascente e, de preferência, a maneira como eles interagem. Há assim o núcleo dos ricaços, os donos do pedaço, os paulistas de 400 anos, como então se dizia. Há o dos imigrantes que, além de braços para substituir o trabalho escravo, trouxeram também idéias perigosas, como o anarquismo e o comunismo. E há os artistas e intelectuais, gente como Monteiro Lobato, mas sobretudo Oswald e Mário de Andrade que, oriundos de ?boas famílias?, cultivam o gosto da irreverência e decidem chocar as elites tradicionalistas.Essa fricção de classes, origens e idéias está de fato na origem do caldeirão cultural em que a provinciana São Paulo dos anos 20 cozinha seu futuro de metrópole, e mais cosmopolita cidade do País. É pena que essas boas intenções iniciais esbarrem na concepção dramatúrgica mais do que conservadora. Tudo soa um pouco artificial, pelo menos neste início de minissérie. Diálogos, cenários, vestuário -- tudo vem bem arrumadinho, certinho, mas sem vida. Certas cenas se parecem com alguns dos mais anódinos filmes da antiga Vera Cruz, que eram nota 10 em termos de técnica e competência, mas apenas sofríveis no quesito expressividade. Faltava-lhes autenticidade, mesmo mal de que padece a minissérie.Resta ver se esse ar rançoso irá acompanhá-la ao longo dos 50 capítulos previstos ou se, com o tempo, encontrará um tom mais justo, mais alegre e criativo, já que pedir ousadia talvez seja demais. Sempre é bom lembrar que à mesma Maria Adelaide Amaral se deve uma das minisséries de melhor qualidade dos últimos anos, Os Maias, adaptado do romance de Eça de Queiroz. Mas também é bom não esquecer que esse produto de qualidade ficou muito aquém do que se esperava no ibope, esse senhor implacável da televisão brasileira.

Agencia Estado,

07 de janeiro de 2004 | 20h03

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.