Um sistema para incluir crianças no circuito do ensino musical

O maestro Anthony Sargent esteve em São Paulo e visitou centros de formação da Capital

Entrevista com

João Marcos Coelho ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

 
Sargent. Ele aprovou 'abrangência' do CCSP e a 'proposta pedagógica' do Auditório do Ibirapuera

O sucesso planetário do projeto venezuelano El Sistema, que em 35 anos gerou ao menos um superstar, o jovem maestro Gustavo Dudamel, além de rasgados elogios de nomes como Simon Rattle e Claudio Abbado, colocou na ordem do dia a fundamental questão da inclusão social associada ao ensino musical. Centenas de projetos pipocaram mundo afora, uns imitando El Sistema, outros adotando concepções mistas ou alternativas.

Na semana passada, Anthony Sargent, emérito especialista em música e inclusão social, visitou os vários projetos musicais no Estado de São Paulo, gerenciados pela Santa Marcelina Cultura. E fez uma palestra para dirigentes e profissionais envolvidos nestes projetos, no Sesc Pinheiros.

O currículo de Sargent é vasto. Trabalhou na BBC - com as orquestras e rádio - e o conhecido PROMS, o festival londrino de verão; foi parceiro de Simon Rattle na Orquestra de Birmingham de 1989 a 1998; e em 2000 criou um projeto-modelo, o The Sage Gateshead, centro cultural voltado para a música de modo amplo, em Gateshead, cidade sem tradição artística anterior.

No Sage, faz-se música de altíssima qualidade (o violinista Thomas Zehetmair, por exemplo, é regente da Nothern Sinfonia), mas não exclusivamente música clássica. A abertura é total, e o centro funciona também como núcleo de convivência e iniciação/aperfeiçoamento de ensino musical.

Sargent adorou as propostas do Centro Cultural São Paulo e Auditório Ibirapuera: o primeiro pela abertura de enfoque; o segundo pela parte pedagógica. Maravilhou-se com o projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi do Sesc Pompeia e "a inesquecível visita à Casa de Cultura de Santo Amaro, com seu Samba da Vela".

A seguir, trechos de sua entrevista ao Estado em torno de sua palestra em São Paulo, intitulada Gestão de um Centro de Excelência Musical: a Comunidade como Eixo da Ação:

 

De que modo uma cidade ou bairro que não tem tradição musical pode integrar-se a um centro musical sem virar "corpo estranho" ao tecido social?

É fundamental que haja muito debate e discussão com a comunidade local no momento de se planejar o centro, para ele não ser ignorado, hostilizado ou rejeitado quando começar a funcionar. No caso de The Sage Gateshead, houve 20 anos de trabalho com a comunidade local antes da construção propriamente dita. Naquela altura, as parcerias já eram muito consistentes. Mas existem, na verdade, poucas cidades ou bairros sem tradição musical. Você precisa detectar a voz musical própria de cada comunidade.

 

O senhor participou do projeto da Orquestra de Birmingham na era Simon Rattle, que segmentou as atividades da orquestra, de modo a fazê-la sensibilizar e tocar a todos os públicos - cada um em sua faixa própria. Qual o tempo médio de maturação de um projeto desses? E quais os riscos que projetos desta natureza correm e aos quais é preciso atentar para não pôr tudo a perder por causa de detalhes?

Buscamos atrair e nos comunicar com diferentes estratos da comunidade. Com determinação, sensibilidade e experiência, projetos como este podem ser criados rapidamente, em três anos. A chave do sucesso é de fato entender a comunidade, sua personalidade e suas necessidades antes de elaborar o projeto.

 

Uma das diferenças de Birmingham e o Sage Gateshead em relação ao Sistema venezuelano é que se dá atenção à música contemporânea, enquanto o Sistema funciona mais como um viveiro de grandes músicos... especializados nessa prática da música do passado.

O Sistema Nacional das Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela é um projeto mal compreendido. Em suas origens, não é especificamente musical, mas de desenvolvimento social e comunitário. Você pode conseguir resultados semelhantes se durante 35 anos fizer o mesmo investimento, de US$ 80 a 90 milhões por ano, em esportes, teatro ou dança.

 

 

Como mostrar ao público em geral que ouvir a música do nosso tempo nos ajuda a compreender melhor nossa época turbulenta e marcada pela violência?

É verdade que as plateias nem sempre são receptivas à música contemporânea, mas lembro aqui a célebre frase do compositor Edgard Varèse: "Ao contrário do que se costuma pensar, um artista jamais está à frente de seu tempo, os outros é que estão atrás do seu." Atrair público para a música de nosso tempo é notoriamente um desafio difícil, mas possível.

 

Projetos musicais de inclusão em geral cuidam demais da integração e recuperação social das crianças e adolescentes - e pouco, ou quase nada, com a qualidade musical propriamente dita. Como adequar essas duas exigências fundamentais em qualquer projeto sociomusical?

Sim, é um completo "nonsense" colocar acesso e excelência como pólos opostos. As crianças têm o absoluto direito do maior acesso possível à música e às demais artes com a máxima qualidade. Não existe nada mais moral ou culturalmente falido e cinicamente nocivo para o desenvolvimento das crianças do que oferecer-lhes um ensino de segunda classe.

QUEM É

ANTHONY SARGENT

REGENTE E ESPECIALISTA EM INCLUSÃO SOCIAL

Formado em política, filosofia e economia, Anthony Sargent foi regente do Coral Magdalene da Universidade de Oxford, antes de dirigir por 12 anos programas de rádio da BBC. Em 1986, foi convidado a assumir a direção do London"s Southbank Centre, criando o projeto de administração dos recursos e da programação do centro londrino. Em 1999, de novo na BBC, dirigiu o ambicioso projeto artístico Millennium Music Live, criando no ano seguinte o Stage Gateshead, centro musical que abriga concertos e cursos de música destinados a pessoas de baixa renda.

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