Um singular libelo contra a hipocrisia

Em Junky, que ganha reedição, William Burroughs trata da vida na sociedade paralela dos dependentes e traficantes

CLAUDIO WILLER* , O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2013 | 02h14

Junky é um relato da vida de William Burroughs (1914 -1997) como dependente de heroína e morfina. Escrito em 1951 e 52, sua criação coincidiu com o terrível acidente no qual matou sua mulher, Joan. Conforme declarou várias vezes, sentiu, ao dar o disparo fatal, que uma força o possuía. A escrita passaria a ser um meio de anular esse controle, exercido através da linguagem. Aceito pela Ace Books através de Carl Solomon, sobrinho do editor e amigo de Allen Ginsberg, a quem conhecera em um hospício em 1949, entrou no circuito "pulp", de edições baratas. Por isso, mesmo vendendo mais de cem mil exemplares, não foi registrado pela crítica, além de sofrer alguma adulteração para poder constar como advertência contra o uso de drogas.

Mas sua contribuição literária relevante começaria com Almoço Nu (Naked Lunch), criado em Tanger (onde permaneceu de 1954 a 58) e depois em Paris, após se tratar da dependência em Londres. Teve o mérito, entre outros, de encerrar a censura a obras literárias nos Estados Unidos, ao término de um processo que abriu comportas: se aquela obscenidade violenta era admissível, então deixava de haver razão para proibir o que fosse.

Seguiu-se a experimentação com os cut-up, recortes e remontagens de textos com Brion Gysin e Ian Sommerville, além de outras práticas que invadiram a paranormalidade: contemplação de espelhos e superfícies opacas para ter alucinações, anotação de criptogramas misteriosos. Cultuado, se faria presente em documentários e outras criações audiovisuais.

Mesmo precedendo sua criação mais importante, Junky tem qualidades próprias. O relato direto, factual, da vida na sociedade paralela dos dependentes e traficantes é o embrião do que viria depois, dos mundos com seres estranhos. Em tom neutro, são registrados tipos, episódios e aventuras nas "bocas" e nos pontos de Nova York, depois no Texas, em Louisiana e no México. Descreve a pavorosa falta ou carência, as tentativas de desintoxicação, experiências frustradoras com outros narcóticos e alucinógenos (mas não poderia ter afirmado categoricamente que cocaína não provoca dependência). Apresenta uma galeria de tipos cuja vida se resume a tentar conseguir a próxima dose.

Estudiosos concordam quanto à motivação de Burroughs: estados alterados de consciência e conviver com marginais eram, para ele, opções preferíveis à vida burocrática. Há relação da qualidade de Junky com a formação de seu autor: quem fala é um viciado e também um egresso de Harvard, estudioso de antropologia e linguística, que sabe estar diante não só de outras condutas, mas de outros códigos. Alcança uma síntese; registros não colidem, sequer se diferenciam. O resultado é, em primeira instância, um libelo contra a hipocrisia, ao tratar com naturalidade do que se evitava falar, a não ser em matérias na imprensa amarela.

Traduzir Junky é um evidente desafio. Trata-se, em boa parte, de socioleto, expressão de uma comunidade ou estrato circunscrito; ademais, sem equivalente brasileiro. A edição agora apresentada pela Companhia das Letras como definitiva é a mesma publicada em 1984 pela Brasiliense, com revisão editorial, mas não da tradução. Na época, o trabalho de Reinaldo Moraes havia suscitado objeções por atualizar a fala de drogados dos Estados Unidos na década de 1940 valendo-se de gírias juvenis brasileiras de 1980. Prosador reconhecido, Moraes tem mão segura e a utilização de termos como "fissura" para designar a sensação de falta da droga soa menos estranha hoje. Não obstante, há um coloquialismo forçado, pela transposição direta da língua falada, usando os agramaticais "to", "ta", "pra" em vez de "estou", "está", "para". É duvidoso chamar maconheiros de "fumetas", e a syrette, marca comercial (um tubo ao qual se adapta uma agulha para injetar heroína) de "seringueta", bem como o termo "junk" para droga pesada. Tombs, antiga prisão municipal de Nova York, não deveria ter sido traduzido por "os túmulos"; menos ainda, médicos como "coveiros". Erra ao traduzir "Internal Revenue" por "Renda Interna" e não "Receita Federal".

Há outra edição brasileira de Junky nas livrarias, da Ediouro (2009), tradução de Ana Carolina Marques. É correta, fluente: não há "seringuetas" nem "fumetas", mas algumas dificuldades foram resolvidas mantendo o termo em inglês e usando notas de rodapé, o que, obviamente, não é o melhor procedimento. É mais completa. Abre com um excelente ensaio de Oliver Harris, além de apresentação por Joca Reiners Terron, um problemático glossário e sete apêndices. Cotejando edições, vê-se o caráter protéico de Junky: além das variantes, na edição da Brasiliense os tópicos eram numerados; na da Olympia, apenas os capítulos; nas recentes é um texto sem numeração e com intervalos entre os trechos.

A comparação das traduções com o original justificaria um debate sobre poéticas da tradução e o que fazer com gírias e socioletos. Resta esperar que esta nova edição preceda a saída de Almoço Nu do limbo editorial em que se encontra (lançado pela Brasiliense em 1984, também foi adquirido pela Ediouro, que o publicou em 2005); e, principalmente, novas edições brasileiras de Burroughs. *É POETA, ENSAÍSTA E TRADUTOR, PÓS-DOUTORADO EM LETRAS PELA USP, AUTOR DE OBSCURO ENCANTO: GNOSE,  GNOSTICISMO, A POESIA MODERNA (CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA), E GERAÇÃO BEAT (L&PM POCKET), ENTRE OUTROS

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