Um sinal dos tempos: o medo da multidão

É sobre isso o filme Phobidilia, que passa amanhã na mostra israelense

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2010 | 00h00

Doron Paz e Yoav Paz são irmãos e cineastas. Eles estão no Brasil desde terça-feira, participando da 3.ª Mostra Audiovisual Israelense que, a propósito, não substitui o Festival de Cinema Judaico. Ele continua ocorrendo: este ano será de 2 a 8 de agosto.

Yoav, de 33 anos, Doron, de 31, assinam Phobidilia. O filme é uma das atrações de amanhã (sábado) da programação. Lembram-se do velho Denise Está Chamando, dos anos 1990? No filme que virou cult na Mostra, Denise era uma garota 100% moderna que passava a se comunicar com os amigos somente por telefone, fax. O e-mail e todas as plataformas correlatas - messenger, twitter, facebook - só vieram consolidar essa tendência de viver na rede. Já que é possível fazer tudo em casa, com um computador - sexo virtual, comida delivery, chats -, para que sair para o mundo?

É o dilema do protagonista de Phobidilia e também de um milhão de jovens ao redor do mundo. O filme é sobre garoto que sofre um colapso nervoso e decide nunca mais sair de casa. Ele consegue tudo o que necessita pela internet. E sofre um baque quando surge, em carne e osso, esta garota, justamente no momento em que o apartamento em que vive corre o risco de ser vendido. Agora mesmo, antes de aterrissar em São Paulo, os irmãos Paz participaram de um festival em Taipei. O filme deles, depois de Toronto e Berlim - na mostra Panorama -, fez a maior sensação junto à garotada local. Mas os jovens reclamavam dos cineastas - por que criticar o que lhes parece tão bom? Porque a vida real é melhor que a virtual, acreditam Yoav e Doron. Para isso, eles citam seu amor pelo Brasil - e por Jericoacoara, onde estiveram no ano passado.

Amanhã, com certeza este debate será ampliado e os irmãos Paz participarão de um encontro com Kiko Goifman, cineasta brasileiro de ascendência judaica, autor, entre outras obras, de Filmefobia. Doron achou o filme de Kiko "estranho, fascinante". Filmefobia se constrói como o making of de um documentário sobre o medo na sociedade contemporânea. O filme dentro do filme é fake, mas o que é real? O ponto de Goifman é que a única imagem autêntica e real deve ser a de um ser humano que assume as próprias fobias. O trio vai falar de cinema, claro, das semelhanças e diferenças entre os métodos de produção no Brasil e em Israel e de fobias, que os três conhecem.

Phobidilia é sobre a agorafobia, o medo da multidão, que condena muita gente ao isolamento. O filme baseia-se num livro de quase 600 páginas de Izhar Harley, que colaborou no roteiro. Esse calhamaço foi reduzido a uma narrativa de 90 minutos. "São mídias diferentes e o livro ocupa boa parte, na segunda metade, viajando na mente do personagem. A história nos interessava e também o caráter imagético do livro. Ao lê-lo, podíamos visualizar as cenas, mas não havia por que reproduzi-las exatamente. Nosso cinema é fortemente visual, pois viemos do vídeo, inclusive musical, foi isso que privilegiamos", diz Yoav.

O fato de criarem um relato objetivo não os impede de viajar na mente do personagem, por meio de fantasias e alucinações. "O filme é experimental", definem. Tem feito boa carreira em festivais. Os irmãos Paz diferem muito, fisicamente, mas a afinidade intelectual é grande. Agora mesmo escrevem o roteiro do segundo longa. E concluíram uma novela para TV. "Na televisão, é preciso trabalhar rapidamente. É uma escola diferente da que seguimos, mas o aprendizado é válido."

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