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Um silencioso grito anti-imperialista

Filme pode ser o primeiro filme contra o domínio dos Estados Unidos da história

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2011 | 00h00

Garras de Ouro: um dos primeiros filmes anti-imperialistas da História. Se não o primeiro. "Não gosto de afirmações definitivas. Melhor não dizer que é "o" primeiro. Mas, em todas as pesquisas que fizemos até hoje, há indícios de que seja sim o pioneiro do gênero." A afirmação é do pesquisador colombiano Ramiro Arbeláez, da Universidad del Valle com mestrado na USP.

O longa é atração de hoje da 5.ª Jornada do Cinema Silencioso, que ocorre na cidade até o próximo domingo e traz relíquias dos pioneiros da sétima arte. Realizado entre 1925 e 26, Garras de Ouro é mudo e preto e branco. Ou quase. Dirigido pelo colombiano P. P. Jambrina (Alfonso Martínez Velasco), foi rodado na Itália é primeiro filme da Colômbia a ter viragens e planos coloridos.

Para "efeitos de cinema", Garras de Ouro é uma obra de ficção que denunciava o roubo do Panamá cometido pelos EUA em 1903, quando o país ainda pertencia à Grande Colômbia e quando a construção do canal ainda era um desafio a ser vencido pela engenharia. Detalhe: seu conteúdo político incomodou tanto as autoridades norte-americanas que o filme "desapareceu" por 60 anos e só foi encontrado pelo cinéfilo Rodrigo Vidal em um velho cinema de Cali, em 1985. Em 1990, foi restaurado pelo Patrimônio Fílmico Colombiano e pelo Museu de Arte Moderna de Nova York

O que torna único, além de seu pioneirismo, é o fato de ser um raro exemplar de filme político em uma época em que a grande maioria das produções girava em torno de temas épicos e dramalhões de amor.

Sua trama gira em torno da luta de um jornalista do periódico The World, "da Cidade dos Arranha-céus, capital da Yanquilândia", para encontrar provas e se defender da acusação de calúnia por ter escrito que Theodore Roosevelt, artífice do Panamá, não devia ser reeleito presidente dos EUA. "O artigo afirmava que Roosevelt não honrara o tratado de soberania colombiana. Os EUA tinham se comprometido a desenvolver uma via interoceânica através do istmo do Panamá, mantendo a integridade territorial da então Colômbia", explica Arbeláez.

Então, para se defender, o jornalista envia vários detetives à Colômbia para encontrar provas da existência do tratado. Um dos "agentes" é Patterson, apaixonado por Berta, filha de um modesto empregado do consulado da Colômbia. "Como todo bom filme da época, tem trama romântica, mas o que está em jogo é a política. Não por acaso desapareceu logo após a estreia, em 1927."

O pesquisador tem propriedade para falar do assunto. Em parceria com Suárez (da Universidad de Kentucky), escreveu dois artigos: Uma Muda Conspiração Contra Roosevelt: Garras de Ouro e Garras de Ouro (Dawn of Justice, Alvorada da Justiça): O Intrigante Órfão do Filmes Silenciosos Colombianos. São exatamente estes dois estudos que servirão de base para a palestra que Arbeláez ministra hoje às 16h30, na Cinemateca. "Vou também falar do documentário que estou montando sobre a pesquisa de se achar os elos perdidos desta história ainda tão misteriosa." Às 19h30, Garras de Ouro será exibido com acompanhamento musical do conjunto Violeta de Outono.

5ª JORNADA BRASILEIRA DE CINEMA SILENCIOSO

Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207, 3512-6111. Inf.: www.cinemateca.gov.br/jornada

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