Um sétimo dia de suor e humor na SPFW

Ao contrário do Gênesis bíblico, no sétimo dia ninguém descansou na São Paulo Fashion Week. A maratona começou pela manhã com o desfile Sommer-C&A-Coopa-Roca (esta última, a cooperativa de artesãs cariocas da favela da Rocinha). Quer dizer, o desfile estava marcado para as 11h, mas atrasou uma hora e meia, devido aos intricados dreadlocks feitos nos cabelos das modelos. Sommer aproveitou o artesanato da Coopa-Roca (fuxicos, bordados, babadinhos, retalhos e outros mimos) para fazer uma coleção comercial (no bom sentido, afinal o target da C&A é mesmo o varejão) e fofa, como é o seu estilo. Os melhores momentos ficaram por contas dos minivestidos e minissaias. Tudo muito jovem e bem humorado para um público que, com certeza, não quer apenas ficar nos jeans agarrados e nas miniblusas tipo funk carioca. Depois veio Fause Haten e sua coleção feminina, explorando vestes baseadas no traje típico coreano. Foi chic e muito feminino. Uma das unanimidades do dia. Todo mundo gostou, inclusive as hárpias e gárgulas da primeira fila. Alexandre Herchcovitch... Well, Alexandre Herchcovitch é um caso seríssimo. Depois de ter visto seu desfile masculino ontem (um Zé do Caixão gótico, streetwear e muito elegante) e o feminino hoje, dá pra entender porque ele é tão incensado aqui e lá fora. Sua inspiração foram os anos 40, Carmen Miranda e Hello Kitty. Mas Herchcovitch não pega simplesmente um monte de referências, bate no liquidificador, alinhava alhos com bugalhos, faz um styling esperto e joga na passarela. Nada disso. Sua expertise em alfaiataria afiada, seu gosto pelo chocante, sua paixão pelo pop e seu humor sempre muito sutil e elegante faz de suas criações peças inconfundíveis. Para a temporada outono-inverno, sua mulher veste mantô de costas vazadas, revelando vestido com saia de babados coloridíssimos por baixo. Na cabeça, presas em tiaras, as frutas do turbante de Carmen Miranda são em veludo preto. Uma banana e uma maçã, um solitário abacaxi e assim por diante. A gatinha nipônica Hello Kitty ganha nova leitura, em estampas negras, sobre seda amarela ou em uma bolsa de couro cru. Muita alcinha e saias lápis (você não pode deixar de ter uma). E a subversão veio no tailleur "mulher gorila": todo rígido e estruturado como no pós-Guerra, mas com enormes mangas peludas. Teve também a saia peluda (como ontem no masculino houve as jaquetas peludas). As blusas de látex embabadado são perdidamente couture. Quando a gente pensou que o Alexandre estava completamente parisiense nesta temporada, ele explodiu em vestidos de babados exuberantes, coloridos e amontoados: "Bem brasileiros, como as almofadas que vi na 25 de março", comentou a inglesa Natalie Gibson, diretora de design de estampas da Saint Martin?s School of London, uma das poderosas sentadas na primeira fila. Sem dúvida, Alexandre Herchcovitch fez de novo. É o nosso mais seguro e maduro criador. Os meninos da V.Rom, Vitor Santos e Rogério Hideki, fizeram um mix de referências (anos 80, rock and roll, college, punk etc...) em sua mais comercial e bem acabada coleção. Ponto pra eles. E Naomi Campbell (a verdadeira "Maria Escura Diniz") entrou majestosa de mantô quimono listrado de preto e branco na passarela de André Lima. Foi um toque do que estava pra vir. Uma coleção desesperadamente Vogue. O estilista mesclou art-déco com o estilo da americana Norma Kamali, um marco da moda nos anos 70/80, tempos de Women?s Lib e Studio 54. Daí que as formas favoritas dela eram os pulls e os macacões dançantes. André pegou tudo isso e exagerou à sua deliciosa maneira cabaré-boudoir-high kitsch. Talita Pugliese, Mariana Weickert e Ana Hickmann entraram juntas, listradas de preto e branco e posaram na frente dos fotógrafos em atitude de capa de Vogue de época. Nas cabeças, turbantes black and white. Trata-se de uma coleção dançante. Tudo escorrega, desliza e esvoaça. Essa mulher sensual e abusada usa até boá de cristais. Além de preto e branco tem também mauve, roxo batata e rosa salmão. O styling do jovem Dudu Bertholini (um dos mais produtivos talentos da nova geração fashion) apareceu no make up flower power, com pétalas de margarida sob os olhos. No final, as modelos se posicionaram como um "tableu vivant" e André entrou para agradecer de mãos dadas com Naomi e Adriane Galisteu, a outra estrela especialmente convidada. No encerramento da temporada tivemos a estréia de Taís Losso, ex-Cavalera, na Zapping, a irmã mais nova da Zoomp. Uma coleção com inspiração nonsense. O cenário era de conto de fadas maluco e uma modelo vestida de Nina Hagen ? vestindo legging brilhante de estampa holográfica ? entrou ao som da própria gritando sua versão apocalíptica do clássico My Way. E então vimos excessos divertidos e algumas licenças poéticas peso pesado: tipo o vestido bolo de noiva (a saia era um bolo mesmo), a saia jeans cancã (bonita, mas impraticável) e o vestido de baile jeans Marte Ataca (Ana Claudia Michels de peruca inacreditável). A estilista exercitou algumas de suas piadas mais eficazes, como as roupas amuletos: um rapaz com um enorme olho no lugar da cabeça e roupa estampada com o tal "olho gordo". Mas a sensação final pareceu forçada demais para agradar a galera. Junto com o styling de Felipe Veloso ? e seu espírito descontrol de Chacrinha fashion ? Thaís parece agir como uma criança demônia solta em uma loja de brinquedos. A idéia de colocar algumas meninas gordinhas desfilando à la Kelly Osborne (a própria estava na trilha sonora, com o hit de Madonna Papa Don?t Preach) foi muito boa. E o encerramento com uma gorducha imitando o travesti Divine no filme clássico trash Pink Flamingos ficou engraçadinho (a piada era esticada demais para arrancar gostosas gargalhadas). Melhor ver as roupas nas araras e no corpo de gente comum, sem aparato e fogos de artifício. Daí dá pra dizer o achei da coleção. Em todo caso, valeu o show, Thaís. E daqui a pouco, em junho, tem mais. Agora é se jogar no Bar Brahma ou no Hotel Hyatt, onde rolam as festas mais concorridas da noite. A da própria São Paulo Fahsion Week e a do estilista Fause Haten respectivamente. Eu vou nas duas. E você?

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