Um sensacional relicário pop

Divisor de águas, o programa mexeu com a TV, a internet, a forma de se curtir e de se embrenhar numa obra, acelerando a fruição

FAUSTO FAWCETT, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

Tudo ao mesmo tempo agora junto e misturado se espalhando, se propagando, se amalgamando, se fragmentando em ondas de interações, recriações e edições em profusão de fluxo gerando incessantes caixas de pandora. Relicários pop engendrados com camadas e camadas de culturas que, uma vez em choque, fomentam a vertigem dos links, a vertigem das conexões, dos labirintos das conexões.

Pois é. Hoje em dia para designarmos um produto de entretenimento como obra-prima, ele terá que apresentar essa capacidade de concentração e vitaminagem de informação. Capacidade de, como um vírus viajante no oceano digital (impacto viral), proliferar provocando desdobramentos, inventando comunicações incessantes, inventando sociedades de conversação infinita. É bater o olho no produto de entretenimento e imediatamente atinar que ele poderia ser enviado pro espaço como aquelas caixas que estão vagando pelo cosmos com músicas de Beethoven, dos Beatles ou Rolling Stones (Satisfaction, o hino da humanidade está numa dessas caixas), trechos de Shakespeare, tapes de filmes e objetos representativos de épocas vividas pelos habitantes deste planeta que ainda não assumiram o óbvio ; estão sozinhos na imensidão do universo prisioneiros da sua específica conjugação biológica. Pedra de roseta. Caixa de pandora.

Uma obra-prima torna- se clássica na medida em que traduz uma época e ao mesmo tempo atravessa, corta a barriga do tempo revelando os princípios ativos que guiam, mobilizam, impulsionam emocionalmente o sapiens, ou seja o "amoródio", a pancadaria entre os instintos agregadores e desagregadores consignados dentro de nós, influenciados, diluídos, aguçados por cotidianos de rotinas e surtos tecnológicos. Obras primas tocam fundo no nervo de Sísifo. O ser humano sentimentalmente é cobra mordendo o próprio rabo. Cada vez que uma mulher abre as pernas pra colocar um Tamagosch no mundo, dá a partida no eterno retorno.

Obra-prima: tradução de uma época e afirmação da eternidade da guerra entre as pulsões sociais e antissociais no seio das civilizações que transformaram de forma acelerada, nos últimos 300 anos, o planeta num quintal de próteses. E eu digo de novo: pois é. Lost é obra-prima, é um clássico, porque contem tudo isso que foi dito acima. Porque provocou tudo isso que foi dito acima. Tudo ao mesmo tempo agora junto e misturado nos seus episódios, nas suas sagas, na sua gana épica. Cristianismo, mitologia grega, Coreia do Sul, cerberus, I Ching e empreendimento científico, computação misteriosa, filosofia explícita, John Locke, David Hume, Rousseau, Carlyle, budismo, terrorismo, navios negreiros, teletransporte, romance policial, estátuas da virgem maria cheias de heroína, tráfico excêntrico, Austrália, balonismo, citações insinuantes, rádio, submundos gregos, Perséfone, doenças mentais, Charles Dickens, Romeu e Julieta, Iraque, hieróglifos, golfe gamão, mistérios, David Linch, Arquivo X, "o que é o que é" essa aventura? Uma alucinação de alguém? Uma divina comédia só com purgatórios? Aventuras de sobreviventes da extinção da humanidade? Um experimento científico? Uma conspiração visando criar mutantes?

Implicâncias. Dirão os detratores mais boçais que isso é apenas o samba do náugrafo doido, mas esses não contam, pois já vivem castigados pelo limbo de suas mentes. Dirão os implicantes mais sofisticados que esse papo de uma obra gerar avalanches de interpretações e interpretações é papo antigo e concordaremos, mas existe um fator peculiar novo eu diria, a popularidade da complexidade num produto de entretenimento de massa. A complexidade como marco da diversão passando por cima daquela máxima de que pouca informação gera comunicação certeira no que chamam de vastidão popular. Lost virou sinônimo de achados, de procura ávida por portais inesperados. Lost, a palavra, virou gíria para vislumbres panorâmicos como os oferecidos por um quadro de Bosch, um de Escher, de Brueghel ou de Pollock. O que os neurologistas, os estudiosos da neurociência nos dizem o tempo todo? Somos cabeças de puzzle ininterrupto. Portanto, cada vez mais, os produtos de entretenimento com carimbo de obra-prima serão aqueles que vão tocar no nervo do midiassauro rex, esse predador de culturas engolindo tudo e liquidificando na sua barriga pop todas as civilizações e suas representações, gerando subprodutos, aplicativos, dispositivos. Saciando a gana de informação e rasante reflexão da rapaziada.

E não há duvida de que Lost nesse quesito é cabeça-de-chave, mexendo com a TV, com internet, com a forma de se curtir, de se embrenhar numa obra. Aceleração da fruição. Tudo ao mesmo tempo agora junto e misturado. Palimpsesto vertiginoso. Caixa de pandora. Obra-prima cabeça-de-chave. Divisor de águas. Lost é um relicário das mitologias religiosas, humanistas e tecnológicas devidamente capturadas há tempos pelo que chamam de pop. Lost é um gigantesco e sensacional relicário de tudo isso. Gigantesco e sensacional relicário pop...

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