Um salto mortal à alma do espectador

Toda obra traz um mistério e deixa um símbolo: esta é a sua missão

Claudio Nigro, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

A história da arte é a história da compreensão. Uma obra de arte é como um "olhar solidificado". Enxergar a Mona Lisa é perceber a maneira como nós nos relacionamos a um quadro mil vezes cultuado, descrito e reproduzido. Atravessar o seu mistério é um trabalho de subtração, que enfrenta o vidro espesso da banalidade. De tanto vê-lo, achamos o quadro banal...

Qualquer obra-prima nos faz um convite: vestirmos os olhos da história ou da compreensão, ou mesmo voltarmos a estar nus diante de um objeto que aciona a central fisiológica do encanto.

A obra-prima muda o olhar do homem, muda a maneira com que sentimos. Transforma o sabor do tempo. O que é a Mona Lisa senão outra esfinge?

Toda obra-prima expõe um mistério e deixa um símbolo. O Davi do Michelangelo propõe um xeque-mate. Quem é o homem renascentista? Contra qual Golias vai lutar?

A caveira de brilhantes de Hirst é uma crítica à sociedade consumista, cravejada até o osso de luxo e ostentação? Ou o emblema de um tempo? Morte transfigurada de beleza?

Para uma obra-prima não há resposta. Ela é a matéria, manipulada ao ponto de nos fazer perder dentro dela a rota da própria linguagem. Toda obra de arte utiliza uma linguagem. Cinema, poesia, pintura, todas possuem uma sintaxe. Naquilo que os alemães chamam de meisterwerk (trabalho do mestre), essa sintaxe desaparece.

Transcendência. Economia e política são baseadas na nossa relação com a matéria. Podemos dizer que o homem é o animal que modifica a matéria, da indústria ao corpo. Na arte essa relação é tão direta que desaparece. Todos temos a impressão que uma obra de arte é transcendente. Mas ela é sempre objeto material: um disco, uma partitura, uma onda sonora.

Essa ideia de arte como canto místico de sereias advém do fato de que na língua poética, no mármore da escultura, no concreto arquitetônico de uma obra-prima, desaparece o rastro da sua construção. Toda linguagem é defeituosa, a palavra nunca toca no que representa. Um texto é uma projeção de conceitos que viaja de uma mente para outra.

Palavras em si são coisas gráficas. Esse é o limite da comunicação que a arte supera, chegando à emoção de quem sabe se expor à sua radiação estética. Ela emociona atravessando a si mesma e chegando num salto mortal à alma do espectador.

A Mona Lisa, emblema de obra-prima, parece respirar. Dizem que Leonardo "inventou" a respiração num quadro, eu diria mais: a Gioconda está expirando. Há movimento e alma dentro de tinta e tela, pano.

No século 20 sintetizamos uma ideia de artista boêmio e marginal, nociva ao bom funcionamento da sociedade, além de conceito velho. O artista tem um lugar específico na engrenagem social: o poeta era condecorado em praça pública na Roma dos Césares.

Imortalidade. Além de contribuir para o equilíbrio emocional da sociedade (a novela das 8 nada mais é de que uma catarse da desigualdade social, por isso tão necessária), quando capaz de obras-primas, o artista pode propor ao mercado um produto raro: a imortalidade. Pois uma obra-prima contém presente, passado e futuro.

Artista é aquele que sabe que a linguagem o impede de dizer o impronunciável. Então, ele trai a si mesmo, trai a matéria, trai a linguagem e deixa um símbolo: a cruz, a pirâmide, uma escultura, uma frase. O poeta é um fingidor, e nessa mentira desesperada, crava na matéria a sua ideia de forma. Esta fala conosco quando lemos, assistimos, ou ouvimos a sua sinfonia. A música é o som organizado, proposto como uma lição de beleza.

Picasso é a natureza destruída enquanto contemplada. Duchamp propõe o livre-arbítrio na ideia de cultura: se uma roda de bicicleta é arte, arte é o que nós decidimos que arte é. O homem se distingue no fato de poder nomear a si mesmo. Adão dá nome aos animais, o pensador diz quem é e quais os significados da vida.

Um obra-prima é um convite a estarmos vivos.

Com ou sem Deus, o homem pode decidir se acredita no simples poder econômico ou na própria capacidade de inventar. Aonde colocamos nossa ideia de beleza está o centro da nossa ideia de mundo. Organizar esteticamente vida e morte posiciona a religião no núcleo da civilização. Mas a arte também participa da experiência prática do sagrado. Catedrais, templos e mesquitas são a prova. Beuys se flagelava para trazer de volta ao corpo a experiência mística. Todos sentimos uma explosão diante de um grande espetáculo. Uma obra que nos tira o ar é algo extremamente sagrado e ligado ao homem por aquilo que ele tem de mais profundo, sua relação com o prazer.

Mensagem eterna. Tudo na história segue esse caminho. As pirâmides do Egito não são monumentos, mas símbolos. Emblemas da relação fundamental: a manipulação da matéria. Empilhar pedras gigantescas e formar um objeto ultradimensional (o ponto depois da ponta da pirâmide não é matéria, talvez seja luz, talvez um conceito... de qualquer forma, a estrutura nos leva a meditar sobre seu formato) que, como diria Nietzsche, é uma "vontade de potência", uma mensagem eterna, gritante e indecifrável.

Tudo o que o homem toca tem um significado. A obra-prima tem mil.

CLAUDIO NIGRO É ESCRITOR E CRÍTICO DE ARTE

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