Um roteiro para se entender o presente

Ideia era privilegiar a produção mais recente, mas entre os 11 títulos selecionados está um clássico quase cinquentenário

O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2013 | 02h12

Guarde o local e o horário - sábado, às 5 da tarde, no Anexo dos Congressistas no Memorial da América Latina. Será a mesa dos homenageados, mas estarão presentes apenas dois deles - Guido Araújo, criador da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, criada em 1972 e voltada à difusão de documentários e filmes de conteúdo social e político, e José Carlos Avellar, crítico, autor de Ponte Clandestina - Teorias de Cinema na América Latina, entre outros filmes.

Avellar e outro crítico, o uruguaio Manuel Martinez Carril, receberam carta branca do Festlatino para selecionar um conjunto de filmes expressivo não apenas da identidade latino-americana, mas que também espelhassem formas de produção e narrativa adequadas para colocar na tela a realidade humana e social e a diversidade cultural do continente. Estava acertado que ambos fariam a apresentação dos filmes escolhidos, mas Carril sofreu um acidente. Está bem, mas permanece em Montevidéu, impossibilitado de viajar ao Brasil para defender com Avellar as escolhas de ambos.

A ideia era privilegiar a produção mais recente, mas entre os 11 títulos selecionados está um clássico quase cinquentenário, como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, de 1964. Num texto especial para o catálogo, sob o título Roteiro para a Imaginação, Avellar observa que talvez seja possível imaginar o cinema feito em diferentes pontos da América Latina na década de 1960 como uma espécie de roteiro para o que se filma agora - com muita liberdade e sem seguir ao pé da letra o que foi anotado, numa livre improvisação sobre o cinema daquela época. E Avellar acrescenta que, mesmo quando não querem ler nem seguir aquele roteiro, os novos autores não partem mais do zero, pois, de algum modo, o fato de esse cinema roteiro ter existido estimula até mesmo caminhos opostos aos que indica.

"Imaginemos, não para emprestar à década de 1960 uma auréola de passado glorioso e clássico, de um tempo mágico gerador de tudo o que veio depois, mas para perguntar se não teria começado a se desenhar ali um espaço que permite inserir num quadro comum filmes tão diferentes entre si (separados pelo tempo, pelo tema, pelo estilo) como Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, de 1963; Cobrador, de Paul Leduc, 2006; Deus e o Diabo, de Glauber; e Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán, 2010."

Os exemplos poderiam se estender ao infinito e, no próprio Memorial da América Latina, num horário e espaço já tradicional - o Cineclube -, os filmes desta semana, integrados ao Festlatino, mas sem ligação com a curadoria do evento - Os Fuzis, de Ruy Guerra, de 1964; A Hora dos Fornos, de Fernando Solanas e Octavio Getino, de 1968; O Chacal de Nahultero, de Miguel Littín, de 1969; e Yawar Malku, o Sangue de Condor, de Jorge Sanjinés, também de 1969, a questão levantada é sempre essa. A criação de uma identidade, o modo de produção e a forma narrativa, tudo precisa estar interligado para que, em diferentes línguas e países, o cinema continental realize seu projeto liberador, colocando na tela o rosto e a cultura, o sofrimento e a euforia, a luta e a resistência dos povos latinos. / L.C.M.

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