Um "Romeu e Julieta" novo, em vários sentidos

Enquanto o jovem casal mais famoso da dramaturgia universal estiver atravessando as agruras de seu amor impossível, em uma Verona do século 16 dividida por uma guerra civil, do lado de fora o trânsito vai continuar congestionado, a poluição seguramente apresentará níveis preocupantes e as estações de metrô seguirão despejando nas ruas milhares de paulistanos por meio de suas escadas rolantes. Estas duas realidades, separadas por um hiato de 500 anos, vão passar a conviver em harmonia durante todo o segundo semestre na Avenida Paulista. Uma nova montagem de Romeu e Julieta, de Shakespeare, estréia dia 16 de agosto, no Teatro Popular do Sesi, para uma temporada de no mínimo cinco meses, com sessões gratuitas, sempre no período da tarde. Orçado em R$ 350 mil, este Shakespeare das matinês tem direção de William Pereira, 38 anos, que traz em seu currículo alguns grandes sucessos de bilheteria, como Uma Relação Tão Delicada, com Irene Ravache e Regina Braga. Os 15 atores que integram a montagem foram escolhidos entre 1,2 mil inscritos. "Foram 12 horas diárias de testes até encontrarmos os atores perfeitos para os papéis", diz Pereira. Dos 1,2 mil inscritos, tiveram acesso aos testes, na verdade, 300 atores aprovados em uma seleção prévia, que limitava-se à análise dos currículos e fotos. O papel de Romeu pousou nas mãos do ator paulistano Eduardo Reyes, formado em Interpretação pela Unicamp. Aos 22 anos, Reyes já atuou em três montagens profissionais em São Paulo. A primeira foi Fausto, dirigida por Márcio Aurélio, ainda com os amigos da faculdade. Depois vieram Deus Sabia de Tudo e Não Fez Nada, com texto e direção de Nilton Moreno, uma colagem de pequenos esquetes que resultou em uma das mais elogiadas montagens dos palcos alternativos no ano passado, e por fim, o musical Gota d´Água, em que também fez assistência de direção para Gabriel Villela. "Este é meu primeiro Shakespeare", diz Reyes, que se apresentou para os testes interessado no papel de Mercúcio, que é morto logo no início da trama. "Quando o diretor me pediu para fazer o Romeu, fiquei um pouco assustado. Mas agora estou confiante no trabalho". A companheira de amores e de infortúnios de Reyes é a jovem Ana Fuser, 23 anos, que encontra em Julieta sua primeira chance de participar de uma montagem profissional. Estudante da Escola de Arte Dramática, Ana atuou até agora somente em espetáculos que não saíram dos limites do campus. Além do horário das sessões e do ingresso gratuito, este Romeu e Julieta chega com outra novidade: a tradução feita pela gaúcha Beatriz Viega de Farias, que chega aos palcos pela primeira vez. "Li 12 traduções de Romeu e Julieta antes de me decidir por esta", diz Pereira. "Alguns textos de Shakespeare costumam ter um lado chulo, popular, que intimida os tradutores. Por respeito, eles parecem suavizar tais passagens, o que é uma pena, já que uma das grandes qualidades do dramaturgo era este poder de dialogar com as camadas mais pobres e incultas da população." Do texto original, que resultaria em uma montagem de três horas e meia de duração, William Pereira limou algumas cenas, para que seu espetáculo coubesse em exatas duas horas. "Não estou interessado em fazer uma montagem de época, mas também não quero adotar aquele estilo modernoso do filme com Leonardo DiCaprio". O que Pereira pretende, de fato, é temperar a lendária história de amor dos dois adolescentes com doses generosas de violência urbana, em uma tentativa de aproximar a Itália renascentista da São Paulo do ano 2002. "Não é possível, num mundo tão caótico como este em que vivemos, que a violência não corrompa um pouco o lirismo das pessoas", diz o diretor, que no momento está em Belém, no Pará, dirigindo uma montagem da ópera Viúva Alegre. "Se Romeu fosse apenas um princepezinho delicado, ele não teria matado por amor. E Julieta também não pode mais ser vista somente como aquele depósito de doçura e ingenuidade mostrado no filme do Franco Zefirelli. Romeu e Julieta devem ser vistos como um pêndulo que oscila entre o amor e o ódio o tempo inteiro. O texto tem um clima de guerra civil que eu quero recuperar". Parece haver algo de podre no reino de Verona.

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