Um romance entre dois criadores de tendências

De certa forma, Coco Chanel & Stravinsky é um filme mais inteiro do que as cinebios de Coco Chanel (filme e minissérie) que andaram sendo feitas ultimamente. Nesta, o diretor Jan Kounen limita o foco ao caso amoroso entre duas personalidades muito fortes - a própria Coco e o compositor russo Igor Stravinsky, que vivia em Paris às vésperas de estrear sua obra-prima, Sagração da Primavera.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

Stravinsky não tinha um centavo de franco de seu e vivia em Paris com a família e a roupa do corpo. Coco, já rica e famosa, lhe faz uma proposta irrecusável, convidando-o a ocupar, junto com a família, sua casa de campo, nos arredores de Paris. Igor poderia, assim, compor em paz, em recanto bucólico, sem ser atormentado pela busca do vil metal. Coco seria uma mecenas. Mas acabou tornando-se muito mais do que isso, e em primeiro lugar porque admirava demais o trabalho do compositor, que estava anunciando a modernidade em matéria de música.

O filme narra, em tom envolvente, as cores desse romance que se mostrou desde sempre problemático porque, no fundo, Stravinsky jamais pensou a sério em abandonar a família para viver com a modista. O arranjo, no aspecto que talvez seja o mais interessante da história, mostra como o compositor contava com a conivência da própria esposa para viver vida dupla.

Além disso, sem procurar a fofoca pela fofoca, Kounen concentra-se na tensão entre a vida pessoal e a criação, crucial para os dois envolvidos. Coco tivera vida difícil. Vinha de baixo e valorizava demais tudo o que havia conseguido. Stravinsky era um exilado, um emigrante de existência igualmente complicada. Tinha família e poucos meios para sustentá-la. Naquele momento é apenas um artista obscuro, com visões de uma música que ninguém ainda entende e nem parece disposta a ouvir. É um pioneiro, e isso tem seu preço.

Com essas histórias simétricas e opostas, o romance entre ambos é conduzido a seu natural dilaceramento. O filme se ajusta a essa circunstância e evita ser meloso ou convencional. Mesmo porque está lidando com dois criadores, uma que revolucionou o mundo da moda e outro que botou a música ocidental de cabeça para baixo. Kounen trabalha com a necessidade de contar uma história de época sem por isso cair naquele tom empoado e museológico que compromete tantos projetos.

UM ROMANCE ENTRE DOIS CRIADORES DE TENDÊNCIASD

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.