Um romance de deformação

O Professor do Desejo, de Philip Roth, que ganha nova tradução, baseia-se na ideia de que o autoconhecimento é sempre danoso

André de Leones,

08 Fevereiro 2013 | 23h17

Originalmente publicado em 1977, O Professor do Desejo é o nono livro de ficção do recém-aposentado escritor americano Philip Roth (1933) e o segundo protagonizado pelo professor de literatura David Kepesh (o primeiro é O Seio, de 1972, e o último, O Animal Agonizante, de 2001). É uma espécie de romance de formação, ou melhor, deformação. Há uma frase atribuída ao escritor John Barth que talvez sirva para descrevê-lo: "O autoconhecimento é sempre uma má notícia".

No decorrer da narrativa, Kepesh fala sobre sua infância num hotel administrado pelos pais, a vida como estudante universitário e os primeiros anos de sua carreira acadêmica. O descompasso entre ele e o mundo é ilustrado pela forma como se relaciona com uma série de pessoas disfuncionais em sua "busca por autocompreensão". A primeira delas é o mestre de cerimônias do hotel, Herbie, cujo "exibicionismo desavergonhado" e sua capacidade para simular não só "a panóplia de sons (...) com que a humanidade emite seus gases, mas também uma diarreia aguda" fascinam o pequeno Kepesh.

Depois, na universidade, ele faz amizade com um estudante de filosofia. Surpreende-se ao descobrir que o amigo seria, segundo as más línguas do câmpus, um "homossexual praticante". Mas, justamente porque a ideia o assusta, não consegue se afastar, pois se identifica com o ser marginalizado que tem diante de si. Ao mesmo tempo, no que diz respeito às garotas, Kepesh não se mostra capaz de conciliar suas investidas com as expectativas delas, frustrando-se continuamente.

Ele flerta com alguma libertação ao ganhar uma bolsa Fullbright e viver em Londres por um ano, quando passa a se relacionar com duas estudantes suecas. O problema é que uma delas não estava necessariamente interessada nas brincadeiras a três, às quais teria se submetido para agradar ao parceiro, e volta para Estocolmo com o coração partido e cogitando se matar. Kepesh vê-se assolado pela culpa, e é tentando expiá-la que se atira numa relação sexualmente desenfreada com a sueca restante. Há sempre uma nota amarga, contudo. O envolvimento deles é um tanto paradoxal, como se animado por uma carnalidade ausente. Ele nunca parece estar, de fato, presente.

De volta aos EUA, ao mesmo tempo em que dá início à sua carreira de professor, Kepesh conhece aquela com quem se casará, Helen. A essa altura (um quarto do romance), depois de tudo por que passou, nosso herói tem uma noção mais ou menos clara da própria incompletude. Mesmo assim, ele se permite embarcar num casamento com uma mulher que, em vez de dirimir sua inadequação, acaba por alimentá-la: "Desde cedo fui cativado pela beleza física nas mulheres, mas Helen não apenas me intriga e excita: sinto-me também alarmado e muito, muito inseguro, totalmente subjugado pela autoridade com que ela assume, confirma e torna única sua beleza, embora ao mesmo tempo suspeite das prerrogativas, da importância, que tal beleza lhe confere em sua própria imaginação". Como de hábito, ele vê uma luz vermelha piscando em algum lugar, mas opta por ir em frente. O casamento é uma bomba-relógio.

Quando afinal se livra de Helen, após desdobramentos inacreditáveis que incluem uma viagem a uma prisão de Hong Kong, e depois de passar por um processo excruciante de terapia, Kepesh conhece uma mulher sensata, tranquila, capaz de lhe oferecer uma relação equilibrada. Não por acaso, ela se chama Claire. Quando escreveu o livro, Roth já estava envolvido com a atriz britânica Claire Bloom (a quem O Professor do Desejo é dedicado). O fato de o relacionamento deles, que se prolongou por quase duas décadas, ter resultado desastroso ecoa, inadvertidamente, a situação tragicômica e o impasse que têm lugar na parte final do romance em questão. É como se a vida respondesse à ficção.

Roth exibe a maestria habitual no modo como arma essas camas de gato das quais, ironicamente, seu personagem sempre tem alguma consciência prévia. É como se o autoconhecimento, mais do que uma má notícia, encerrasse também uma compulsão pela autossabotagem. Como "aprender a viver sem o que desapareceu"?, ele se pergunta. Kepesh parece estar atolado entre a exuberância de Mickey Sabbath, protagonista de O Teatro de Sabbath, e a culpa de Alexander Portnoy, de, claro, O Complexo de Portnoy. A exemplo dessas e de outras criações do autor, o maior problema de David Kepesh é que ele simplesmente não sabe o que fazer de si e, por decorrência, dos outros. Ele está sozinho como o restante de nós.

ANDRÉ DE LEONES É ESCRITOR, AUTOR DE DENTES NEGROS (ROCCO) E TERRA DE CASAS VAZIAS (MESMA EDITORA, NO PRELO)

Leia trechos de O Professor do Desejo:

[Pág. 16]

Nos anos restantes da universidade, vivo mais ou menos como nos invernos de minha juventude, quando o hotel ficava fechado e eu lia centenas de livros da biblioteca ao longo de centenas de tempestades de neve. O trabalho de reparação e renovação prossegue sem cessar durante os meses árticos - ouço o som de correntes de pneus mordendo a superfície das estradas das quais a neve foi retirada, ouço as tábuas sendo derrubadas do caminhão sobre a neve, ouço os sons simples e inspiradores do martelo e da serra. Mais além do peitoril forrado de neve, vejo George e Big Bud indo reformar os chalés próximos à piscina coberta. Aceno, George toca a buzina... e para mim é como se os Kepesh fossem agora três animais num estado acolhedor e inexpugnável de hibernação, Mamãe, Papai e o Filhote acomodados com toda a segurança no Paraíso da Família.

[Pág. 65-66]

Parece que a capacidade para a renúncia dolorosa, aliada ao dom do abandono sensual, é o que torna sua atração irresistível. O fato de nunca nos darmos realmente bem, de que eu nunca tenho certeza total, de que lhe falta certa profundidade, de que sua vaidade é enorme - bom, tudo isso não é nada diante da estima que acabo tendo por essa jovem, bela e dramática heroína, que já arriscou, ganhou e perdeu demais ao aceitar o desafio de seus apetites. E há também a beleza propriamente dita. Ela não é mesmo a mais desejável criatura que conheci em toda a minha vida? Como uma mulher tão fisicamente cativante, da qual não posso afastar os olhos até quando está apenas bebendo café ou discando um número de telefone, com alguém cujo menor movimento corporal exerce efeitos tão poderosos sobre mim, não preciso me preocupar com a possibilidade de ser tentado pela imaginação a empreender novas aventuras ignóbeis e perturbadoras. Não é Helen a feiticeira que eu havia começado a procurar na universidade, quando o lábio inferior de Sedosa Walsh me levou a persegui-la do restaurante até o ginásio e de lá até a lavanderia do dormitório - uma criatura para mim tão linda que nela, e só nela, consigo concentrar todo o meu desejo, toda a minha adoração, toda a minha curiosidade, toda a minha lascívia? Se não é Helen, quem será? Quem me fascinará mais? Mas eu preciso ser fascinado ainda mais.

[Pág. 166]

"Bem, o pior já passou. Talvez tenha passado. Pelo menos passou até agora. Mas, enquanto durou, enquanto não pude ser o que sempre presumi que era, aí foi diferente de tudo que havia conhecido na vida. Naturalmente, você aqui é o especialista em totalitarismo - mas, se me permite, só posso comparar a obstinação total do corpo, sua fria indiferença e desprezo absoluto pelo bem-estar da alma, com um regime totalitário incontrolável. E você pode fazer quantas petições quiser, interpor os recursos mais sentidos, mais solenes e mais lógicos - sem receber a menor resposta. Na melhor das hipóteses, provoca até alguma hilaridade. Apresentei minhas petições por intermédio de um psicanalista; eu comparecia ao consultório dele dia sim, dia não durante uma hora para apresentar minha defesa em favor da restauração de uma libido robusta. E, posso lhe dizer, com argumentos e perorações não menos intrincadas, tediosas, sagazes e obscuras que as encontradas em O Castelo. Se você acha que o pobre K. é esperto, precisava me ver tentando superar em esperteza a impotência."

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