Um rito de passagem

Academia premia filme mudo no momento em que o analógico tende a ser sepultado pelo digital

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2012 | 03h08

Houve um momento em que os prognósticos pareciam ter todos furado. Como numa partida de futebol, 5 a 2, os prêmios para A Invenção de Hugo Cabret (melhor fotografia, direção de arte, som, mixagem de som e artes visuais) pareciam dar de lavada em O Artista (melhor figurinos e música). Mas aí, na quadra final da 84.ª cerimônia de premiação da Academia de Hollywood, começou a reação do longa do francês Michel Hazanavicius. Ele fez história como o primeiro diretor de filme de país de língua não inglesa a ganhar o prêmio na categoria principal. O empate técnico, 5 a 5, veio com os Oscars de direção, ator (Jean Dujardin) e filme. Na verdade, O Artista foi o grande vitorioso da noite.

Mas houve uma vitoriosa - Meryl Streep. Recordista de indicações para os prêmios de interpretação na história do Oscar - 17 vezes -, Meryl havia ganhado duas vezes, há 30 anos. De coadjuvante, por Kramer Vs. Kramer, atriz por A Escolha de Sofia. A Academia esperou todo esse tempo porque queria, de certo, que seu terceiro Oscar fosse acachapante. Meryl não é menos do que extraordinária como A Dama de Ferro. A própria Margaret Thatcher, mergulhada nas sombras do seu Alzheimer, teria, num raro momento de lucidez, a impressão de estar se mirando num espelho. Os indicadores apontavam para a vitória de Viola Davis, que vencera o prêmio do SAG, o sindicato dos atores, por Histórias Cruzadas. Os atores corrigiram seu voto e Meryl foi aplaudida de pé.

Houve Oscars irrepreensíveis - o de maquiagem, complemento indispensável para o brilhante trabalho de atriz de Meryl; o de roteiro original para Woody Allen, por Meia-Noite em Paris; o de filme estrangeiro para A Separação, de Asghar Farhadi; e os prêmios de O Artista. Todo ano fazem-se sempre análises mirabolantes dos indicados e dos vencedores do Oscar, prova de que o prêmio da Academia, por mais polêmico que seja - os críticos tendem a minimizá-lo, como reconhecido da indústria, no qual o dólar contaria mais que a arte -, é uma referência importante. Como campeões de indicações deste ano, Hugo Cabret, com 11, e O Artista, com 10, pareciam sinalizar para uma onda de nostalgia.

Num momento de crise, em que o analógico tende a ser sepultado pelo digital, o cinema (e a Academia) davam marcha à ré, retornando aos primórdios do cinema, à época de outra passagem, a do silencioso para o sonoro. Houve ali uma dupla revolução, técnica e estética, como a que ocorre aqui. Carreiras foram destruídas, grandes artistas resistiram quanto puderam aos novos tempos e rumos - Charles Chaplin, Charles Chaplin, Charles Chaplin -, mas o cinema resistiu, e sobreviveu. Há 11 anos, ao iniciar o debate sobre o digital, o Festival de Cannes já fizera a interrogação - se mudasse de suporte e o digital, como está ocorrendo, substituísse a película, o cinema continuaria existindo? Seria reconhecido como tal, ou teria de mudar de nome?

O pedido de concordata da Kodak - que se compromete a continuar produzindo película - se inscreve nesse movimento e o apresentador da festa se referiu ao teatro que leva o nome da empresa como teatro 'da bancarrota'. Tudo isso é verdade, mas nostalgia? O mais belo, nesta história toda, é que O Artista não é nostálgico. Sentimental? Um pouco. Michel Hazanavicius parece acreditar na frase de Tancredi (Alain Delon), quando ele diz ao príncipe Salinas (Burt Lancaster) que as coisas têm de mudar para que tudo continue na mesma, na obra-prima de Luchino Visconti, O Leopardo. Há mais nostalgia e até sentimentos no perdedor, Hugo Cabret. É o melhor filme de Scorsese em anos, mas também é... Anódino? O filme mais spielbergiano que Steven não realizou, segundo Jotabê Medeiros?

Foi o Oscar da passagem, o espelho da mudança. Hollywood se reconheceu na parafernália de efeitos visuais de Hugo Cabret e premiou, no filme de Scorsese, o que era possível premiar. A vitória do aparentemente mais simples - preto e branco, ausência de diálogos -, O Artista, na verdade, consagrou uma obra de grande riqueza, complexidade e humanidade. Jean Dujardin diz duas palavras, apenas, no desfecho de O Artista. Elas são essenciais. Michel Hazanavicius era o que se chama de 'artesão'. O título de seu filme comporta múltiplos significados. E se o artista que nasce no vencedor do Oscar for ele? Magnífico.

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