Um riso sobre o acaso da existência

Em Uma Fração do Todo, o australiano Steve Toltz narra episódios tragicômicos da vida de um filósofo misantropo

Carol Bensimon, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2011 | 00h00

Em outubro de 2009, uma boa capa e um primeiro parágrafo poderoso fizeram-me sair da Shakespeare & Company, a famosa livraria anglófona parisiense, carregando um livro sobre o qual eu jamais ouvira falar. Era um romance extenso, o primeiro de um escritor australiano chamado Steve Toltz, e o fato de um livro de estreia ter mais de 600 páginas parecia, no mínimo, algo digno de respeito. Chamava-se A fraction of the Whole. Para minha sorte, e completamente por acaso, eu estava naquele momento segurando o que mais tarde eu consideraria uma das obras mais impressionantes da década. Para sorte de todo o público brasileiro, Uma Fração do Todo acaba de ser lançado no País pela editora Record, em uma tradução impecável de Janaína Marcoantonio.

Levemente deslocado do eixo realista, o romance de Toltz acompanha a vida e os projetos tão originais quanto megalomaníacos de Martin Dean, uma espécie de filósofo misantropo com uma opinião para tudo, de cortes de cabelo à ausência de Deus. Martin teve uma infância difícil em uma pequena cidade australiana, parte dela ele passou em um coma profundo, parte dela foi obscurecida pela popularidade de seu irmão, Terry. Para Martin, a vida adulta tampouco foi um parque de diversões: nunca esqueceu Caroline Potts, a garota que preferiu Terry, viveu um relacionamento insosso em Paris, teve um filho não planejado, e preocupou-se desde cedo com a finitude da vida, o que não o impediu de minar seu próprio futuro repetidas vezes. Para completar, toda sua família morreu em um incêndio, em circunstâncias que, indiretamente, ele mesmo provocou.

Os episódios tragicômicos que formam a controversa vida de Martin são narrados, em sua maioria, por seu filho Jasper. E Jasper é um anti-herói tão cativante quanto o pai, desde a primeira até a última página. Muitas vezes tratado como cobaia de um experimento filosófico-existencial, o garoto cresce ouvindo o pai produzir discursos virulentos a respeito da sociedade contemporânea, enquanto tudo que Jasper deseja é ter uma vida normal: "(...) depois de oito meses no jardim de infância, decidiu me tirar de lá, porque o sistema educacional era "embrutecedor, emburrecedor, arcaico e materialista". Eu não sei como alguém pode chamar pintura a dedo de arcaico e materialista". À medida que o tempo avança, no entanto, Jasper se torna talvez tão excêntrico quanto Martin e esse é justamente o seu maior medo: ser uma cópia fiel do pai, cujo espírito crítico só o leva a becos sem saída de infelicidade e autocomiseração.

Enquanto pai e filho se atraem e se repelem em igual medida, Martin também se sente assombrado pelo fantasma do irmão, que, a despeito de ter sido um assassino, é visto como o grande herói nacional. O sentimento de fracasso fará com que, perto do fim de sua vida, Martin decida levar a cabo um excêntrico plano: fazer de todo habitante da Austrália um milionário. Mas esse é só mais um projeto bem-intencionado que se transforma em uma tragédia de proporções épicas, culminando em um improvável desfecho nas selvagens entranhas da Tailândia. Aí está, aliás, o ponto fraco do romance: as ações que se sucedem no país estrangeiro têm a cara de uma resolução apressada, com um excesso de elementos bizarros. O que não chega a ofuscar, contudo, os grandes acertos dessa saga familiar picaresca.

Dito isso, Uma Fração do Todo é um desses raros livros que, se você se deter para sublinhar todas as boas sacadas, os questionamentos relevantes, os diálogos engraçados, as partes sublimes, provavelmente não haverá uma só página sem marcas de caneta. Um exemplo: "(?) quando você é criança, para evitar que você siga a multidão você é atacado com a frase: "Se todo mundo pulasse de uma ponte, você pularia?"; mas, quando você é adulto, e ser diferente é subitamente um crime, as pessoas parecem estar dizendo: "Ei. Todo mundo está pulando de uma ponte. Por que você não?"".

Distante do tom sóbrio de Jonathan Franzen em Liberdade e dos jogos simbólicos de Roberto Bolaño em 2666, isso para citar dois livros igualmente caudalosos que sacudiram o mercado literário nos últimos dois anos, a prosa de Steve Toltz é revestida de uma certa malandragem, um sarcasmo cortante e um sem-número de insights explosivos, que não baixam a guarda nem nos momentos mais tocantes do romance. Para alguns, isso parecerá um defeito. Para outros, um convincente equilíbrio entre drama e comédia, ou ainda uma maneira de rir de si mesmo, bem como do completo acaso da existência.

CAROL BENSIMON É FICCIONISTA, AUTORA DE PÓ DE PAREDE (NÃO EDITORA) E SINUCA EMBAIXO D"ÁGUA (COMPANHIA DAS LETRAS)

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